Quantas ideias podem nascer de uma agulha e alguns novelos de fio? Para Anah Cardoso e Gisele Adam, a resposta é simples: tantas quanto a criatividade permitir. Foi justamente da união entre talento, amizade e o desejo de transformar o fazer manual em uma forma de expressão que surgiu a Ganah, um ateliê criativo pelotense que vem conquistando espaço ao unir crochê, design autoral e sustentabilidade.
Muito além de bolsas e acessórios, cada peça produzida pela marca carrega uma história construída ponto a ponto. Antes mesmo de a agulha entrar em ação, existe um processo de pesquisa, observação, testes de materiais, desenvolvimento de formas e experimentação. Os resultados são produtos únicos, confeccionados artesanalmente com fio de malha residual, material proveniente das sobras da indústria têxtil, considerada uma das mais poluentes do mundo. Ao optar pelo reaproveitamento desses resíduos, a dupla encontrou uma forma de reduzir desperdícios e, ao mesmo tempo, criar peças exclusivas, já que cada lote de fios apresenta cores, texturas e combinações diferentes.

Hoje elas ministram aulas no Clubinho (Foto: Divulgação)
A história da Ganah começou em 2024, quando Anah e Gisele se conheceram durante o curso Técnico em Vestuário. A afinidade foi imediata. Enquanto Anah já carregava anos de experiência com trabalhos manuais, Gisele enxergava naquelas criações um enorme potencial de comunicação e mercado. Anah aprendeu crochê, tricô e bordado ainda criança, observando a mãe produzir peças em casa. Com o tempo, a curiosidade a levou a buscar novas técnicas por conta própria. “Criar sempre foi a minha forma de me expressar”.
Já Gisele se encantou pelo universo do crochê quando descobriu as inúmeras possibilidades oferecidas pelo fio de malha. Seu olhar voltado para criação, comunicação e identidade visual complementou naturalmente a habilidade artesanal da parceira. “Enquanto eu gostava da parte de criar e produzir, a Gisele sempre enxergava potencial naquilo que eu fazia. Ela foi uma das primeiras pessoas a insistir para que aquelas peças fossem mostradas para outras pessoas”, relembra Anah.
A marca
A ideia da marca ganhou forma durante a Semana da Criatividade. Depois de assistirem a uma palestra, sentaram-se diante de uma folha em branco para listar possíveis nomes para o negócio que sonhavam construir. Naquele momento nasceu a Ganah. O empreendedorismo surgiu quase sem planejamento. As primeiras bolsas foram confeccionadas para uso próprio. Logo vieram os pedidos de amigas, familiares e conhecidos. Aos poucos, perceberam que aquilo que começou como paixão poderia se transformar em um negócio. “Nenhuma de nós começou pensando apenas em empreender. Começamos porque amávamos criar. O negócio apareceu como uma maneira de permitir que continuássemos criando”, afirmam.

Ateliê criativo teve início com produção para próprio consumo (Foto: Divulgação)
Hoje, embora o crochê seja a principal linguagem utilizada pela marca, elas preferem definir a Ganah como um ateliê criativo. Cada coleção nasce de pesquisas sobre moda, arquitetura, arte, design, natureza, música e objetos do cotidiano. A curiosidade é o principal combustível da dupla, que busca constantemente novas possibilidades para reinterpretar materiais, formas e texturas através do trabalho manual.
Nenhuma bolsa nasce pronta. Antes da produção, são realizados inúmeros testes de pontos, estruturas e acabamentos até encontrar a melhor solução para cada ideia. Algumas peças carregam ainda significados especiais. Diversos modelos receberam nomes de amigos que participaram do processo de criação, sugerindo referências, colaborando com ideias ou acompanhando o desenvolvimento dos projetos. “O trabalho manual vai muito além da técnica. Cada bolsa carrega tempo, escolhas e uma história. É isso que buscamos transmitir em tudo o que fazemos”, explicam.
“O crochê é nossa principal ferramenta hoje. Amanhã pode ser outra. Nosso interesse sempre será pesquisar materiais, técnicas e possibilidades de criação.” Embora muitas pessoas ainda associem o crochê ao artesanato tradicional ou às lembranças das avós, as empreendedoras acreditam que essa visão está mudando rapidamente. “Grandes marcas internacionais de moda e importantes designers vêm redescobrindo o potencial do trabalho manual como símbolo de autenticidade, exclusividade e consumo consciente”. As empreendedoras acreditam que na Ganah o crochê não é uma tendência. “É uma linguagem criativa. Com ele conseguimos transformar fios em objetos contemporâneos, autorais e cheios de significado.”
Clubinho Ganah
Além da produção das peças, outro braço importante da marca são os cursos oferecidos pelas empreendedoras. A proposta nasceu do desejo de compartilhar conhecimento e mostrar que qualquer pessoa pode desenvolver sua criatividade através do fazer manual. As aulas atendem desde iniciantes até pessoas que desejam aperfeiçoar a técnica ou transformar o crochê em uma fonte de renda. “Procuramos incentivar cada aluno a experimentar, criar e desenvolver sua própria identidade”.

Crochê, hoje, é a principal ferramenta (Foto: Divulgação)
Para elas, ensinar também representa uma forma de preservar a cultura do fazer manual e fortalecer a economia criativa. “Queremos mostrar que o crochê também pode ser uma ferramenta de expressão, de empreendedorismo e até de terapia. É muito gratificante acompanhar o desenvolvimento dos alunos e perceber como eles descobrem novas possibilidades.”
Esse compromisso com a construção de uma comunidade criativa também deu origem ao Clubinho Ganah, espaço criado para aproximar clientes e admiradores da marca. Ali são compartilhados bastidores da produção, pesquisas, processos criativos, novidades, lançamentos e experiências antes de chegarem ao público em geral.
Visibilidade
Hoje, o principal canal de divulgação da marca é o Instagram, onde as empreendedoras mostram tanto os produtos finalizados quanto o cotidiano do ateliê. A participação em feiras e eventos criativos também faz parte da estratégia de crescimento, permitindo contato direto com consumidores interessados em conhecer a história por trás de cada peça.
Os desafios
Empreender em Pelotas, segundo elas, apresenta desafios comuns aos pequenos negócios, mas também oferece oportunidades por conta do fortalecimento da economia criativa e da valorização do trabalho autoral. Atualmente, a Ganah ainda divide espaço com outras atividades profissionais das duas sócias, mas a meta é transformar o ateliê em sua principal fonte de renda. Para isso, as funções são divididas conforme as habilidades de cada uma. Anah concentra-se na pesquisa, criação dos modelos, desenvolvimento e produção das peças. Gisele lidera a comunicação, as redes sociais, o marketing, o relacionamento com clientes e a organização comercial.
O sonho para os próximos anos é consolidar a marca como uma referência em criatividade e design autoral, participando de eventos de moda, lançando coleções baseadas em pesquisa e ampliando sua atuação para outros centros do país, ligando o fio de lã ou linha em Pelotas, unindo os pontos até conquistar novos mercados.
