Fama a qualquer custo

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

Fama a qualquer custo

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A febre dos influenciadores digitais no Brasil chama a atenção para um fenômeno que saltou das telas dos celulares e passou a ter como cenário as delegacias de polícia. É cada vez maior o número de “personalidades” envolvidas em denúncias e crimes cometidos contra pessoas próximas e seguidores que ajudam a transformar anônimos em estrelas de curta duração. Os episódios se acumulam.

O influenciador de futebol Lucas Strabko (Cartolouco) agrediu a namorada no início do ano, foi denunciado e se tornou réu por agressão física e violência psicológica contra a ex-companheira. Já Dilson Alves da Silva Neto, o Nego Di, foi condenado pela Justiça gaúcha após cometer crimes de estelionato, lavagem de dinheiro, uso de documento falso e promoção de loteria ilegal. Ele promovia rifas sem autorização legal e simulava sorteios de prêmios de alto valor como forma de atrair apostadores.

No Distrito Federal, o Ministério Público ingressou com ação civil pública contra a influenciadora Virginia Fonseca e o site de apostas Blaze, por indícios de “práticas abusivas, retenção sistemática de valores e imposição de metas de apostas aparentemente inatingíveis”. Em Minas Gerais, a Polícia Civil e a Polícia Rodoviária Federal deflagraram uma operação para combater a prática de manobras perigosas em vias públicas. Os alvos foram dois influenciadores digitais, com mais de 400 mil seguidores, suspeitos de obter ganhos financeiros com a publicação desse conteúdo nas redes sociais.

Também em Minas Gerais, a Polícia Civil prendeu um influenciador digital de 24 anos, que publicava conteúdos relacionados à música. Ele é suspeito de envolvimento com o tráfico de drogas. E, no Paraná, vítimas denunciaram uma influenciadora que acabou presa em Curitiba, suspeita de extorsão.

Temos o mesmo mundo em duas versões. Em uma delas estão os que sonham com a fama e o dinheiro fácil, apesar da baixa ou nenhuma qualificação, a partir de conteúdos superficiais e embalados, na maioria das vezes, por algum valor estético — o suficiente para fisgar milhares de seguidores. Na outra, estão aqueles que usam as ferramentas de forma inteligente e interessante.

O sucesso efêmero dos influenciadores ilude. Sem planejamento e projetos para a carreira, o desaparecimento ocorre de forma natural, assim como a substituição do espaço nas redes por outros, com a mesma fórmula, para entregar mais do mesmo. Já somos o país com o maior número de criadores de conteúdo do planeta: 3,8 milhões.

No caso dos condenados, presos, processados e denunciados, o peso é diferente. O envolvimento com o crime, a adesão a golpes ou a exposição de um lado pessoal sombrio dialogam com a falta de índole e de senso moral. Alheios à ausência de senso crítico de parte de quem os segue, aproveitam a fama veloz para lucrar em cima de quem não se importa em seguir nomes por modismo. Até a polícia bater à porta.

De maneira geral, as pessoas decidem seguir outras por três motivos: identificação com valores, admiração pelo estilo de vida e busca por dicas práticas. A necessidade de pertencimento a um grupo também pesa. Assim, formam-se conexões, apesar da superficialidade desse universo. No mercado, atrelar uma marca a contas recheadas de seguidores vem se tornando arriscado. Afinal, quem deseja ver seu produto ligado a casos de polícia ou polêmicas?

Há um preço alto na vida de quem se julga influenciador. A Manychat mostrou, em um estudo global, que metade (51%) dos criadores já considerou abandonar a atividade. O desgaste causado pela rotina intensa e imprevisível e a má remuneração são os principais motivos. A pesquisa, de certa forma, revelou o óbvio: 31% disseram que as pessoas não os percebem como profissionais atuantes no mercado. Três em cada quatro lucram menos de R$ 53 mil por ano (cerca de R$ 4,4 mil por mês) com o material postado. Precisam planejar, gravar, editar, vender, negociar, cuidar da parte contábil e responder aos comentários. É a vida real de quem vende felicidade diária e que não aparece nas telas.

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