Há esportes que se explicam pelos números. O futebol, não. Ele desperta sentimentos. Há momentos em que é preciso ser frio para decidir. Em outros, quente para competir e reagir. Mas existe um estado que dificilmente perdoa: o morno. E é justamente quando a temperatura sobe que começam a ser escritas as grandes histórias.
A Copa do Mundo chegou ao momento de escrever grandes histórias. Ao fim deste sábado, restarão apenas quatro seleções. Para o torcedor brasileiro, porém, ela esfriou cedo demais. A eliminação nas oitavas de final, a pior campanha desde 1966, tirou a temperatura do Mundial por aqui.
Mas julho também escreve outra história.
Enquanto o verde e amarelo esfriava em solo americano, o vermelho e preto começava a aquecer no frio do Rio Grande do Sul, na Copa FGF, a Copinha dos gaúchos.
A Copa FGF nasceu como plano B para os xavantes. O objetivo era a Série D. Mas o time perdeu confiança e identidade. Ficou morno. Um morno que parecia não ter perspectiva, mesmo depois da invencibilidade construída no início da temporada.
Foi no passe de Gedeilson e na finalização de Masson que uma Baixada até então esvaziada voltou a se encher de sorrisos. Pela primeira vez, o torcedor sentiu que era hora de abraçar essa Copa FGF. Talvez a forma como a classificação para a final tenha acontecido valha mais do que a própria vaga.
Como gostam de dizer os xavantes, se não é sofrido, não é o Brasil. Mais do que classificar, o time voltou a competir. Neste domingo, diante do Gramadense, no Passo D’Areia, começam os primeiros 90 minutos da final. Mais do que um título, o Brasil joga para confirmar que deixou para trás o futebol morno que marcou boa parte da temporada.
No Pelotas, a temporada também começa a aquecer. Daniel Franco ainda monta o elenco. Fora de campo, o conselheiro Klécio Santos deve apresentar ao Conselho Deliberativo a proposta de criação de uma SAF acompanhada de um ambicioso projeto imobiliário para o clube. Se esse será o caminho, não sei. Mas o simples fato de o clube discutir o próprio futuro já representa um avanço.
No futebol, viver da história e permanecer parado já não parece o melhor caminho. É preciso evoluir.
E, para voltar a falar do futebol brasileiro, talvez seja justamente aí que esteja o maior atraso.
Desde o 7 a 1, imaginávamos que o choque mudaria nossos rumos. Mudou pouco. Talvez a pergunta mais importante seja outra: em que momento deixamos de evoluir?
A eliminação para a Noruega não começou no MetLife Stadium. Começou muito antes, quando o futebol brasileiro deixou de formar jogadores, ideias e processos na velocidade em que o restante do mundo evoluiu.
Talvez o problema não esteja apenas em mais um julho de eliminação. Esteja na base. Na formação. No lugar onde o futebol brasileiro precisa voltar a aquecer para que a Seleção volte a disputar uma Copa do Mundo como protagonista.
No fim, o futebol sempre muda de temperatura. Ele esfria. Ele aquece. E as grandes histórias quase nunca são escritas por quem escolhe permanecer morno.