De verde e amarelo. De vermelho e preto. De azul e amarelo. Mudam as cores. Mudam as camisas. Mas a emoção continua a mesma. A bandeira, a camisa do coração e tudo o que elas representam fazem parte de um rito chamado futebol. Um esporte que nos prende do primeiro ao último minuto, que marca, emociona e também deixa cicatrizes.
Neste fim de semana chegou ao fim, mais uma vez, o sonho da sexta estrela. Há 24 anos, o Brasil tenta recuperar um lugar que já foi seu. O futebol brasileiro continua sendo uma potência, mas já não ocupa sozinho o centro do cenário mundial. Outros protagonistas surgiram. Evoluíram. E o Brasil parece ter parado no tempo.
A Seleção se agarrou às cores, aos ritos e às cinco estrelas. Enquanto isso, o futebol mudou. O mundo evoluiu. O talento continua existindo. O problema é acreditar que ele, sozinho, ainda resolve tudo. Não resolve.
A Copa de 2026 deixou sinais importantes. O ciclo da Seleção Brasileira foi atrapalhado do começo ao fim. Em muitos momentos, as decisões pareceram atender mais ao ambiente externo do que a um projeto esportivo consistente.
O Brasil não se preparou para voltar a ser protagonista. Apostou no hipotético, no místico, no improvável. A convocação de Neymar, em 18 de maio, acabou simbolizando esse ciclo. Ninguém discute o tamanho do jogador. Foi o maior talento brasileiro depois da geração de Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho. Mas sua presença já não era sustentada pelo que mostrava em campo e, sim, pela esperança de que ainda pudesse decidir uma Copa do Mundo.
Uma pena. Neymar tinha talento para escrever uma história ainda maior. Mas, aos poucos, o extracampo passou a ocupar espaço demais na trajetória de um craque raro. A provocação ao goleiro norueguês, com o Brasil perdendo por 2 a 0, acabou resumindo esse fim de ciclo. O futebol brasileiro precisa voltar a acreditar menos na memória e mais no mérito.
O futebol não premia quem vive da história. Premia quem evolui. Daqui a quatro anos estaremos lá outra vez, vestindo a camisa, cantando o hino e sonhando com o hexa. Mas, se o futebol brasileiro quiser voltar ao topo, precisará entender a principal lição desta Copa: história inspira. Não joga.
Essa lição não vale apenas para a Seleção Brasileira. Em Pelotas, ela também serve para quem sonha voltar aos grandes dias. E, nos embalos de sábado à noite, o vermelho e preto sorriu.
Não foi fácil. Como nunca é. Como dizem os xavantes, ou como costuma repetir Rogério Zimmermann, o sofrimento é sempre o mesmo. E, falando em repetição, o Brasil voltou a apresentar velhos problemas.
Mesmo com Laécio Aquino mudando o esquema e alterando peças, o Brasil do primeiro tempo lembrou o Brasil de Santa Cruz, de Bagé e de Pato Branco. Um time atrapalhado, sem força e diante de uma torcida disposta a apoiar, mas que não recebia resposta dentro de campo.
Mas a maneira como o Brasil venceu talvez valha mais do que a própria classificação. Porque ela pode ter ligado uma chave. O Brasil não vai ganhar de qualquer jeito. Vai precisar de mais passes como o de Gedeilson, mais resiliência como a de Masson, mais habilidade como a de Andrey e mais insistência de um time que viu a bola bater na trave três vezes antes de entrar.
Claro que nem todo sábado será assim. O Brasil ainda precisa de reforços, mais organização e melhor desempenho. Mas talvez a chave tenha sido virada. Que venha o Gramadense. Que venha a decisão. Que venha esse título, porque futebol também é confiança.
E o Xavante, além de reorganização e novas peças, precisa justamente disso: confiança. Nem que ela venha de vermelho e preto.
No fim, talvez seja esse o papel que o futebol também cumpra. Não são só vitórias. Não são só dias felizes. Quem ama esse esporte sabe que sempre existe esperança, ainda que, por algumas horas, a dor permaneça por mais um julho despedaçado em verde e amarelo. Mas o futebol sempre encontra um jeito de nos chamar de volta.