A agenda do Prepara RS, em Pelotas, teve mapas, projeções, radares, estações hidrometeorológicas e cifras milionárias. Mas Eduardo Leite parece saber que a preparação para o El Niño não será vencida apenas na parte técnica, também haverá uma disputa por comunicação.
O governador falou disso com uma sinceridade pouco protocolar. Disse que, nas redes sociais, “o terrorismo dá muitos likes”. A frase resume o problema. Depois das enchentes de 2024, o Rio Grande do Sul virou terreno fértil para qualquer previsão virar pânico, qualquer mapa virar sentença e qualquer influenciador virar especialista em tragédia.
É aí que mora o risco. O Estado precisa alertar sem aterrorizar, precisa dizer que vem mais chuva, sem vender a ideia de que 2024 vai necessariamente se repetir. Precisa preparar a população, mas sem transformar cada frente fria em anúncio de calamidade. Leite sabe que esse equilíbrio é difícil, afinal, a ciência trabalha com probabilidades, enquanto a rede social trabalha com corte de vídeo e um medo embalado para compartilhamento.
Por isso, o governo tenta organizar também a comunicação dos municípios. A Secretaria de Comunicação do Estado prepara kits informativos, conteúdos de orientação e alinhamento com prefeituras e imprensa. Em crise climática, informação também é infraestrutura, não detalhe.
A fala do governador também tem uma camada política. O governo investe em radares, estações, obras, centros de gestão de risco e estudos técnicos. Leite fez questão de dizer que os altos investimentos são orientados por ciência, dados e por um comitê com mais de 50 especialistas, inclusive de fora do governo. Em momentos assim, sempre aparece alguém vendendo soluções fáceis, como obra milagrosa ou equipamento salvador. O governador disse, com outras palavras, que gastar sem base técnica é risco de jogar dinheiro no lugar errado.
No fundo, a preocupação com fake news não é apenas defesa de imagem do governo, é a proteção da própria operação. Um boato pode atrapalhar evacuação, um alerta desacreditado pode não ser obedecido, enquanto um exagero repetido muitas vezes pode fazer a população parar de ouvir quando o risco for real.
A comunicação oficial terá de ser rápida e confiável. Não adianta divulgar nota técnica ilegível quando o medo já está correndo no WhatsApp. Também não adianta aparecer só depois da confusão instalada. Portanto, a disputa dos próximos meses será de ocupar o espaço antes que o alarmismo ocupe.
Governador com prefeitos
Após a programação do Prepara RS, o governo do Estado realizou uma reunião com prefeitos da Zona Sul. A audiência teve como objetivo discutir pleitos prioritários e temas considerados relevantes para o desenvolvimento regional. A pauta climática deu o tom da manhã, mas a reunião ampliou a agenda para outras demandas dos municípios.
Durante o encontro, os prefeitos entregaram ao governador documento construído contemplando os principais pleitos, entre os quais, a agilização da liberação dos recursos do Programa Conexões RS, considerada essencial para que os municípios possam dar andamento às obras de infraestrutura e mobilidade já planejadas. Também foi solicitada a aceleração dos repasses do Programa Drenagem RS. Os gestores municipais destacaram que grande parte das prefeituras ainda aguarda a liberação dos recursos, indispensáveis para a execução de obras de prevenção de alagamentos, drenagem urbana e mitigação dos impactos provocados pelos eventos climáticos extremos registrados nos últimos anos.
Outra reivindicação foi a disponibilização de horas-máquina por parte do Governo do Estado para apoiar ações preventivas nos municípios, como limpeza e desassoreamento de canais, recuperação de estradas vicinais, manutenção de sistemas de drenagem e outras intervenções voltadas à redução dos riscos de novos desastres naturais. Na área da saúde, a Azonasul defendeu o fortalecimento da regionalização dos serviços, ampliando a oferta de consultas especializadas, exames e procedimentos na própria Zona Sul. Os prefeitos ressaltaram que os elevados custos com o transporte de pacientes para centros distantes comprometem os orçamentos municipais e impõem dificuldades às famílias, tornando necessária uma estrutura regional mais robusta e resolutiva.
A agenda do governador em Pelotas também incluiu visita à obra do Hospital Regional de Pronto Socorro, na avenida Bento Gonçalves, previsto para ser inaugurado no final de agosto.
Otávio Soares
Morreu na sexta-feira (3), aos 75 anos, o radialista e ex-vereador Otávio Soares. Ele estava internado em razão de uma pneumonia. Natural de Santa Vitória do Palmar, Otávio teve uma trajetória marcada pela comunicação e pela política. Em Pelotas, foi vereador por cinco mandatos, presidiu a Câmara em três anos e chegou a exercer interinamente o cargo de prefeito. No rádio, passou pela Pelotense e pela Cultura, além de atuar, nos últimos anos, na rádio Cultura de Santa Vitória do Palmar.
Particularmente, Otávio Soares foi um abridor de portas. Foi no programa dele, ainda criança, que falei pela primeira vez em rádio, na velha Rádio Pelotense da rua Andrade Neves. Também foi através dele que, ainda menino, entrei pela primeira vez na Câmara de Vereadores. No antigo prédio da Câmara, na Marechal Deodoro, o gabinete do PL — antes da refundação do partido — era o primeiro, logo à esquerda. Para uma criança, aquilo era quase um outro mundo. Para Otávio, era natural abrir a porta, apresentar, deixar entrar. A cidade perdeu um grande político e comunicador.