A cultura chinesa em Pelotas?

Opinião

Luís Rubira

Luís Rubira

Professor de Filosofia

A cultura chinesa em Pelotas?

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“A Universidade Federal de Pelotas (UFPel) pretende instalar, ainda no segundo semestre deste ano, o primeiro polo de acupuntura da América do Sul. A informação é do médico e professor titular de Farmacologia e Anestesiologista na UFPel, Fernando Carpena Alves, que realizou curso de especialização de acupuntura, no ano passado, em Xangai, na China, através de bolsa do CNPq, com o patrocínio da própria universidade. O Polo a ser instalado em Pelotas (…) em convênio com o Instituto de Medicina Tradicional Chinesa, de Xangai (…) estará voltado à pesquisa, ao ensino e à prática da acupuntura (…). ‘Para um país como o Brasil, este tipo de medicina de baixos custos viria bem’, argumentou o professor Carpena Alves, ‘já que não há necessidade de importar remédios e pagar royalties’” (Jornal do Brasil, RJ, 07/03/1983, p. 12).

Que destino terá tido este projeto de Convênio que naquele ano de 1983 previa na UFPel a criação, em nível de pós-graduação, de “um curso de um ano de duração, para o ensino das bases da acupuntura a médicos anestesistas e clínicos gerais”? (Idem, ibidem). Bem, se aqui me interesso por um tema que envolve a milenar civilização chinesa, é porque faz poucos dias tive a oportunidade de participar de uma “Reunião-almoço” na Associação Comercial de Pelotas em torno do tema: “Missão China – tecnologia, cidades e novos negócios”. No oitavo andar Edifício Palácio do Comércio (inaugurado na década de 1940), em meio a empresários e lideranças locais que lotavam o belo “Salão Mauá” (lembremos de Mauá: empresário do Império, de Jorge Caldeira), pude assistir as palestras proferidas pela advogada Marisa Leitzke Buss, pelo empresário Daniel Peglow e pelo jornalista Adilson Cruz.

A experiência profissional e humana destas três pessoas na China, seus conhecimentos e o diálogo com o público fez retornar em mim uma série de memórias, bem como despertou a vontade de investigar sobre a presença chinesa em Pelotas. Já na década de 1990 tomei contato com a esta cultura milenar por meio de meu ex-sogro e amigo Luiz Osório Pires Prado (Bispo da Igreja Episcopal Anglicana falecido em 2010) que durante seus últimos anos de vida viajou diversas vezes para a China e de lá voltava impressionado com informações que fazia questão de dividir conosco.

Em Pelotas, como mostram os estudos de Arqueologia Histórica e Cultura Material realizados no âmbito da UFPel por Luciana Peixoto e Fábio Cerqueira, já desde o século 19 a elite local parecia apreciar temas relacionados à China pois, dentre os fragmentos de louças encontrados em escavações de sítios históricos, como o da Casa 8 (Museu do Doce), estavam bules e xícaras produzidos na Europa com “cena chinesa no estilo chinoiserie” (Almanaque do Bicentenário de Pelotas, v. 3, p. 423). É somente no século 20, porém, que podemos começar a encontrar alguns dos emigrantes chineses que aqui se estabeleceram, sobretudo quando pensamos na culinária local.

Proprietário do Restaurante Shanghay, Luís Carlos Yuk recebeu o título de “Cidadão Pelotense” no ano de 2014. Filho de Sik Chun Yuk e Jit Mao Yuk, seus pais partiram de Hong Kong em 1962 e estabeleceram-se em Pelotas em fevereiro de 1963. Depois de trabalhar “vendendo pastéis no Jockey Club de Pelotas”, Sik fundou inicialmente com outros dois sócios “o Oriente, primeiro restaurante oriental em Pelotas”, para depois criar em 1971 o Restaurante Shanghay. Atualmente localizado na Rua Sete de Setembro, n. 257, o Shanghay ocupa um prédio histórico cuja fachada está bem preservada, local onde também trabalha uma pelotense casada com um descendente de chineses. Já o Restaurante Mings, criado em Pelotas na década de 1980, continua em pleno funcionamento na praia do Laranjal, sob a administração de Wai Ming Yuk, nascido em Hong Kong em 1957.

Lembraria também aqui de Luís Roberto Soares Nunes (1965) que por volta dos seus 15 anos começou a aprender Práticas Tradicionais Chinesas em Pelotas com o mestre Li Hon Shui, o qual viera também de Hong Kong, tornando-se uma referência na prática do Tai Chi Chuan. Sua companheira, a Dra. Sylvia Isaacsson, manteve a partir dos anos 2000 uma Clínica de Acupuntura Médica, localizada também em um belo sobrado da arquitetura de Pelotas na Rua Quinze de Novembro, n. 762. Numa consulta rápida a uma Lista Telefônica do ano de 2000, pude ainda encontrar sobrenomes chineses, a exemplo de Huang.

Bem, se não chegou a realizar-se a criação de um curso de pós-graduação em acupuntura na UFPel em 1983, fato é que por aqui chegou por volta de 1989 a Doutora Patrícia Zillig, que havia cursado medicina e que também fez o curso de pós-graduação no Instituto de Acupuntura no Rio de Janeiro (IARJ). Casada com um pelotense, ela foi uma das fundadoras da Associação Médica de Acupuntura do Rio Grande do Sul (AMARS) em 1990, sendo que ela segue atuando em Pelotas na Rua Major Cícero, n. 66. Seguirei investigando a presença da cultura chinesa em Pelotas e, caso você, leitora e leitor, tenha conhecimento sobre algo, ficaria contente se compartilhasse suas memórias comigo ([email protected]).

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