Baleias

Opinião

Felipe Lannes Gonçalves

Felipe Lannes Gonçalves

Psicólogo

Baleias

Por

Há algo desconcertante no olhar de uma baleia. Grandes, quase por completo azul petróleo e com textura entre um lençol amassado e ondas vista de cima. Uma leve auréola branca os circula, quase imperceptível, mas visível o suficiente para vermos vida e consciência do outro lado.

Uma das hipóteses da biologia evolutiva diz que o branco dos nossos olhos evoluiu para facilitar a comunicação. Diferente da maioria dos animais, nós mostramos para onde estamos olhando. Talvez seja por isso que o olho da baleia nos cause estranhamento. Há nele um traço que nosso cérebro associa imediatamente a uma conversa.

Ao mesmo tempo, é como aquela sensação de quando estamos sonhando e tentamos correr, mas não saímos do mesmo lugar. Há algo estranho. Os olhos da baleia parecem feitos para a comunicação, mas nos lembram que nunca poderemos realmente nos comunicar com elas.

Já a civilização humana só foi possível porque conseguimos seguir o olhar uns dos outros. Imagine alguém apontando apenas com os olhos para um fruto, um perigo ou uma ferramenta.

Seja por proteção ou desatenção, o tempo passou e nossos olhos escureceram. Hoje ainda seguimos os olhares uns dos outros, mas  com menor presença. Continuamos olhando. Enxergando, já não sei.

Talvez toda comunicação seja a tentativa de atravessar uma distância que nunca desaparece completamente. Um olhar serve para nos lembrar que não nos conhecemos por completo.

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