Oficialmente inaugurado em 24 de setembro de 2012, o Espaço de Arte Daniel Bellora (EADB) se consolidou como um ecossistema multicultural que une a preservação do patrimônio arquitetônico à vanguarda da economia criativa, do empreendedorismo e da arte contemporânea. Para abrir as comemorações dos 15 anos de fundação, está sendo preparada para o dia 15 de agosto uma feira criativa na rua Três de Maio, entre Andrade Neves e General Osório, endereço do EADB.
O que começou como o projeto íntimo de um ateliê transformou-se em um dos principais pontos de encontro da Zona Sul do Estado. A trajetória do Espaço de Arte Daniel Bellora está profundamente ligada à resiliência e ao amor. Em 2012, a advogada e então professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Tânia Bellora, enfrentou a dor imensurável da perda trágica de seu filho, Daniel. Diante do vazio, ela buscou na arte uma forma de canalizar o luto e ressignificar a própria existência.
A experiência artística fez com que Tânia realizasse uma transição radical de carreira: mergulhou na arquitetura e descobriu uma paixão pela fotografia. Foi quando ela percebeu que Pelotas não tinha mais aquela profusão de galerias e espaços dedicados às artes plásticas, como nas décadas de 1980 e 1990, por exemplo.
Ao mesmo tempo, a mãe saudosa desejava criar um memorial vivo e palpável para o filho, apreciador da arte, um local que respirasse beleza e criação. Essa busca ganhou forma definitiva quando ela encontrou um casarão centenário inventariado pelo município.
O imóvel, muito semelhante à casa da própria avó, trazia a atmosfera de nostalgia e afeto necessária para o projeto. Inicialmente pensado para ser um ateliê privado de pintura e galeria de arte, o espaço logo revelou um potencial muito maior.
No porão antes escondido
Durante o processo de restauro, um insight arquitetônico mudou o destino do projeto. Embora a planta original previsse que a galeria de arte ocuparia as salas do andar superior, Tânia e sua equipe decidiram ousar: a galeria de arte seria instalada no antigo porão da casa.

O empreendimento era exclusivamente voltado para as exposições (Foto: Acervo EABD)
Até então escuro e relegado ao armazenamento, o porão quase esquecido passou por uma reforma estrutural minuciosa e o resultado surpreendeu. O contraste dos tijolos aparentes com as luzes de exposição criou uma atmosfera de galeria de vanguarda.
Mais recentemente, foi descoberto que o antigo porão, agora galeria de arte, é dotado de uma acústica excepcional. O que proporcionou um novo filão: os shows mais intimistas.
Para dinamizar ainda mais o fluxo de pessoas, em 2014 nasceu o Café no Espaço. Integrada ao jardim interno e à galeria, a cafeteria tornou-se o coração social do casarão, oferecendo um refúgio aconchegante para quem busca apreciar exposições ou simplesmente desfrutar de momentos de calmaria no meio do dia.
O pioneirismo no coworking
Em março de 2015, o designer formado pela UFPel, Lucas Bauer, que até então prestava consultoria de marketing para Tânia Bellora, uniu-se formalmente à iniciativa como sócio e gerente. Juntos, eles perceberam que o casarão poderia ser um laboratório de conexões profissionais.
Foi assim que nasceu o Hub1005 (batizado com o número da casa na rua Três de Maio), o primeiro espaço de coworking de Pelotas. “Na época era um negócio muito novo e a gente queria bater muito nessa questão da localização”, relembra Bauer.
A ideia era trazer um giro diferente para a cidade e tornar o espaço ainda mais vivo. “Propusemos um ambiente compartilhado que quebrasse o isolamento de profissionais de design, tecnologia da informação e arquitetura, integrando-os diretamente à rotina criativa da galeria”, relembra Lucas Bauer.
O pioneirismo deu certo. “Foi surpreendente a gente não sabia muito o que esperar”, comenta Bauer, que apostava no interesse de profissionais do design e de TI, que eram grupos que ele conhecia. “Eu imaginava que eram os profissionais que poderiam estar trabalhando num espaço compartilhado com outros profissionais numa proposta criativa diferente que é o espaço de arte Daniel Bellora”, relembra.

A área externa do casarão também recebe eventos (Foto: Acervo EABD)
O modelo colaborativo reduziu custos operacionais para profissionais autônomos e estimulou a criação de novos negócios. Hoje, o ecossistema do EADB abriga cerca de 40 empresas fixas somente na sede da rua Três de Maio, atraindo desde jovens empreendedores criativos até profissionais liberais tradicionais, como advogados e corretores, que buscam oxigenar sua rotina de trabalho.
“Fez muito muito sentido para o pessoal da área criativa designers, arquitetos, fotógrafos e a gente virou referência pra esses profissionais que buscam essa parte mais criativa, isso é legal, mas também foi muito surpreendente que a gente acabou recebendo muita demanda de clientes das áreas mais tradicionais, que foram conhecendo o modelo e foram se adaptando e é super interessante essa mistura”, avalia.
Um novo posicionamento cultural
O sucesso do modelo de negócios do Hub1005 expandiu fronteiras. Recentemente, a marca foi convidada a integrar o Rampa Innovation Hub, localizado no bairro Quartier. A ideia é expandir significativamente a rede de networking da empresa na região, focando em negócios de inovação.
Com a operação corporativa e tecnológica agora muito bem estruturada na filial do Quartier, Lucas Bauer revela que os planos para o casarão histórico envolvem uma volta às origens, consolidando o endereço da rua Três de Maio como um Hub cultural e de economia criativa.
“Mas agora a gente entende também que estamos no centro histórico de Pelotas, numa proposta de galeria, por isso queremos que o espaço seja cada vez mais cultural. Como temos esse segundo espaço, que tem mais esse viés da inovação, a gente vai tentar atrair cada vez mais empresas da área criativa para o casarão”, fala Bauer.
Exposições desde o início
Independentemente dos planos para o futuro, a galeria segue com uma agenda intensa, com mostras de design, fotografia e artes plásticas, inclusive com uma forte conexão com os acadêmicos dos cursos de artes da Universidade Federal de Pelotas. A mais recente exposição da galeria Daniel Bellora tem a fotografia em destaque. A arte do instante é a primeira mostra individual do fotógrafo pelotense Jorge Polidori.

Lucas Bauer diz que a sede do centro estará mais voltada à cultura (Foto: Henrique Risse)
Mas, ao longo dos anos, a galeria recebeu exposições de artistas das mais diferentes vertentes. E agora o espaço da galeria tem sido palco para apresentações acústicas no formato pocket, aproximando o público de artistas locais e nacionais, a exemplo das recentes apresentações de Nina Nicolaiewsky e o músico argentino Nacho Rodriguez.
Celebração na Rua
Para dar início às comemorações da data histórica, no dia 15 de agosto, os sócios do Espaço de Arte Daniel Bellora preparam um grande evento multicultural de rua financiado pelo ProCultura. O evento trará feiras de economia criativa, exposições de artistas plásticos locais, gastronomia e shows ao vivo.
O formato é alusivo à memorável celebração de dois anos de fundação da casa, quando o coworking foi inaugurado com toda a casa aberta à comunidade pelotense. “Nesses anos a gente pode manter o espaço com a integridade que ele merece, em um casarão inventariado. Desses 15 anos, a gente só tem a agradecer pelo público, pelos clientes, pelos projetos que chegaram aqui e tudo que a gente conseguiu somar”, fala Lucas Bauer.
