A morte da irmã transformou a dor em propósito. Depois de perder um familiar para a ludopatia e ver toda a família ser afetada pelo vício em apostas online, a cearense Jéssica Lobo passou a atuar como desinfluenciadora das bets e fundou a ONG Ângela Maria, que acolhe e orienta pessoas impactadas pelo problema. Na entrevista à Rádio Pelotense, ela relata como a tragédia mudou sua vida, fala sobre o trabalho da ONG e faz um alerta para os riscos das apostas.
Como surgiu a ONG Ângela Maria?
Infelizmente, os jogos impactaram a minha família de uma forma surreal. Porque a gente se viu do dia para a noite sem nada, inclusive sem teto. Porque a minha irmã acabou penhorando a casa da minha mãe para um agiota e deixando três filhos órfãos. Então a ONG nasceu. Antes disso, eu também havia perdido tudo o que construí em oito anos por causa dos jogos. Ela deixou um áudio dizendo que queria alertar outras pessoas, e eu decidi transformar o luto em luta. Hoje, a ONG atua há três anos, com grupos de apoio que atendem mais de 10 mil pessoas.
Como era a vida da sua irmã antes de desenvolver o vício?
Minha irmã sempre foi trabalhadora, responsável e um exemplo para a família. Criou sozinha três filhos e ajudou na formação do meu caráter. E é essa imagem que eu tento levar da minha irmã. O que aconteceu dentro dos jogos, por mais que a gente tenha perdido o nosso financeiro, a nossa casa, por mais que a gente tenha perdido tudo, eu tento guardar para mim a pessoa que a minha irmã foi, porque não foi um vício que moldou o caráter dela. Foi um erro que custou a própria vida dela. Minha irmã achou que iria conseguir sair da angústia que vivia por causa dos jogos.
Como a ONG ajuda pessoas que enfrentam a ludopatia?
Oferecemos grupos de apoio, rodas de conversa, terapia em grupo com psicólogo e acolhimento emocional. Também ajudamos famílias em situações extremas, com alimentos, aluguel e orientação. Tudo é mantido com recursos próprios, mas sentimos falta de ter mais profissionais, espaços especializados para atender essas pessoas, porque uma das demandas é a falta de psicólogos e psiquiatras diários dentro dos postos de saúde. Então a gente se sente meio que acuado, porque não consegue abraçar todo mundo.
O vício em apostas costuma ser percebido pela família?
Na maioria das vezes, não. Quem desenvolve a dependência tenta esconder o problema e cria estratégias para jogar sem levantar suspeitas. Ela começou a se trancar para jogar às 18h30min, que era o melhor “horário de pagamento” e falava para todo mundo que não queria ser incomodada porque ela estava ouvindo a oração do bispo. Mas não houve tempo. A aposta final foi R$ 20,00 que era para a comprar carne. Depois tirou a vida. Nós não temos no país hoje uma clínica especializada para o ludopata. Temos várias para reabilitação, mas para o maior problema que o país enfrenta hoje, que é a ludopatia, não tem.
Vocês chegaram a buscar a Justiça?
Minha irmã mantinha contato direto com um administrador, relatando dificuldades para sacar valores e até a intenção de tirar a própria vida. Ela deixou muita gente endividada. Minha mãe mesmo deve cerca de R$ 800 mil entre empréstimos, cartões de créditos, o meu irmão, deve cerca de R$ 90 mil. Na época não tínhamos dinheiro para contratar um advogado. Quando resolvi expôr nas redes sociais eu fui bloqueada pela empresa.
O que mantém você firme nessa luta?
Eu sempre me senti um grão dentro do mar. Sempre soube que enfrentaria grandes empresas e influenciadores, mas nunca pensei em desistir. Mas o apoio das pessoas que sofrem com a ludopatia me dá força para continuar. Elas se sentem representadas quando alguém mostra a realidade por trás das apostas, diferente da imagem de riqueza e sucesso divulgada nas propagandas. Mas é preciso mais, essas pessoas precisam se reeducar para o mercado, para trabalhar.