O desenvolvimento da viticultura na região sul do Estado conta com a forte contribuição de César Rombaldi. Doutor em produção e industrialização de frutas e hortaliças e professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), o pesquisador atua em estreita colaboração com a Embrapa e a Emater para impulsionar a produção local de uvas, sucos e vinhos. Nesta entrevista, Rombaldi compartilha orientações fundamentais sobre correção de solo, escolha de mudas, podas e controle de pragas para garantir o sucesso dos vinhedos.
Professor, estamos em meados de julho. Qual é o cenário atual para quem já possui um vinhedo e para quem planeja iniciar o plantio agora?
Temos duas situações bem distintas. Para quem já tem o vinhedo implantado, o foco agora é a cobertura verde do solo (com azevém, aveia, nabo ou ervilhaca) semeada lá em março, essencial para proteger a terra das chuvas volumosas de inverno. Já para quem vai implantar, o período ideal de plantio começou agora e vai até o dia 7 de setembro. Se o produtor ainda não providenciou as mudas ou não preparou o solo, não há necessidade de pressa: é perfeitamente possível realizar o plantio no final de agosto.
Qual a importância do preparo e da correção do solo para a videira? Meio hectare já se caracteriza como um negócio viável?
Com certeza. Em nossa região, meio hectare de uvas como a Niágara pode render de 15 a 20 toneladas após quatro anos, o que já se torna um negócio bastante lucrativo. Contudo, o segredo do sucesso para os próximos 20 anos está na correção do solo. O pH ideal para a videira fica entre 6,0 e 6,4. Como nossos solos naturais costumam ser ácidos (próximos a 5), a aplicação de calcário é indispensável. Sem a correção do pH, a planta não consegue absorver os nutrientes necessários, como o fósforo, que precisa ser inserido no plantio, comprometendo a produtividade de forma permanente. Se nunca foi feita uma análise do solo, provavelmente ele é ácido.
Quais os principais cuidados na hora de adquirir as mudas?
O primeiro passo é buscar produtores que forneçam mudas certificadas. Isso evita a introdução de vírus e da pérola da terra, um inseto que ataca as raízes e destrói o vinhedo. Vou no Google e coloco produtores de mudas de videira certificada. Para quem adquire mudas comuns em torrão no comércio local, recomendo retirar a terra e examinar as raízes: se houver pequenas galhas (verrugas), descarte a planta. Uma muda saudável, plantada no período correto, chega facilmente a dois metros de altura até o Natal.
Em relação ao manejo físico, como realizar uma boa poda e proteger a parreira?
O princípio básico é a renovação anual. Se as plantas estiverem velhas e cansadas, recomendo uma poda drástica de renovação. Embora reduza a carga no primeiro ano, ela prepara a parreira para uma excelente produtividade futura. Após realizar cortes grossos na videira, é fundamental protegê-los. Para quem tem poucos pés em casa, uma solução simples e natural é polvilhar canela em pó diretamente sobre as áreas cortadas em um dia de sol para cicatrizar e evitar fungos.
Quais são as pragas e doenças que mais ameaçam os parreirais na região?
A principal doença fúngica que nos preocupa é a glomerela, que se instala na floração e apodrece os frutos na época da colheita. Para combatê-la, o produtor deve recolher e descartar todos os restos de cachos velhos que sobram após a safra. No campo das pragas, a formiga é a pior inimiga: do início da brotação (meados de setembro) até novembro, o monitoramento deve ser diário, pois elas podem desfolhar uma parreira em uma única noite. Na fase de maturação, animais como ratos, pássaros e moscas-da-fruta também são atraídos pelo aroma das uvas de mesa.
Se eu tenho um sítio, eu quero plantar umas parreiras para fazer o meu vinho, qual é a melhor uva?
Vai no Bordeaux, que é mais prático. É uma uva que vai lhe dar menos problemas com doenças, vai produzir todos os anos. Ela começa a amadurecer ali no início de janeiro, você vai ter até o 20 de fevereiro para colher. Se tiver glomerela, ela primeiro vai se alimentar da branca. Ela gosta muito da uva branca.
Há espaço para o crescimento da produção local? O que vale mais a pena produzir: vinho ou suco de uva?
Há muito espaço para crescer, pois nossa região ainda importa metade da uva que consome. Produzir com qualidade e industrializar nós sabemos. A pergunta que o produtor deve se fazer é: “Eu sei vender?”. O suco de uva integral em garrafa de vidro, feito sem conservantes, mantém qualidade excelente por até um ano, mas a embalagem eleva o custo. O vinho oferece uma estocagem mais longa, mas o mercado é altamente competitivo e mantém o capital de giro imobilizado por mais tempo. É preciso planejar a viabilidade comercial antes de começar.