“É importante destacar que estar endividado não significa, necessariamente, estar inadimplente”

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“É importante destacar que estar endividado não significa, necessariamente, estar inadimplente”

Gustavo Fernandes - Economista da Fecomércio-RS

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“É importante destacar que estar endividado não significa, necessariamente, estar inadimplente”
Na opinião do economista, a taxa de juros alta contribuiu para o endividamento (Foto: Reprodução/PelotenseFM)

O economista da Fecomércio-RS, Gustavo Fernandes, detalha os dados da recente Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), explica a diferença entre “dívida boa” e “dívida ruim” e alerta para os impactos do cartão de crédito e das apostas online no orçamento das famílias.

A pesquisa recente indica que 86,9% das famílias gaúchas estavam endividadas em junho, um leve recuo frente aos 87,4% de maio. Apesar da queda, o patamar segue extremamente elevado. Como devemos interpretar esse dado?
A PEIC é uma pesquisa de percepção. Ela avalia como as pessoas se sentem em relação às suas finanças. É importante destacar que estar endividado não significa, necessariamente, estar inadimplente. Nem todo crédito é ruim. O financiamento de um imóvel, por exemplo, é uma dívida de longo prazo, mas é uma “dívida boa”, pois gera patrimônio. O problema é que o patamar atual no Rio Grande do Sul está acima do registrado no ano passado (cerca de 84%). Além disso, o comprometimento da renda das famílias com dívidas está na casa dos 30%. Isso é preocupante porque esse valor deixa de ser usado no consumo de bens e serviços, afetando a economia como um todo.

Quais são os principais fatores que explicam esse aumento do endividamento?
O fator determinante é a taxa básica de juros (Selic). Embora tenha iniciado um processo de queda nos últimos meses, ela permaneceu alta por muito tempo. A Selic é a taxa base para todo o mercado financeiro. Quando ela está elevada, os juros ao consumidor disparam, alcançando uma média de 63% ao ano. Isso encarece o crédito, desorganiza o orçamento e dificulta as renegociações de dívidas antigas por taxas mais baratas.

A pesquisa aponta que as famílias com renda de até 10 salários mínimos são as mais afetadas. A perda do poder aquisitivo tem papel nisso?
Sem dúvida. A inflação acumulada em itens essenciais como alimentos, energia elétrica e combustíveis pesa proporcionalmente mais no orçamento das famílias de menor renda. Quando o custo de vida sobe, sobra menos dinheiro para quitar os compromissos, o que acaba gerando a inadimplência, que ocorre formalmente a partir de 90 dias de atraso, embora o sistema financeiro já considere o risco a partir de 30 dias.

Por que a geração de empregos não tem sido suficiente para reduzir o endividamento?
Porque a taxa de juros elevada anula parte desse impacto positivo. É fato que temos uma das menores taxas de desemprego da história e a massa rendimentos segue elevada. No entanto, a combinação de juros altos com a falta de planejamento financeiro faz com que as dívidas de curto prazo cresçam muito rápido. O endividamento em si permite antecipar o consumo, mas, sem educação financeira e num ambiente de juros altos, ele se torna um problema.

Tem crescido o número de lojas oferecendo compras no boleto para negativados. Como a Fecomércio enxerga essa prática?
É uma estratégia para continuar vendendo em um cenário onde uma fatia considerável da população está com restrições de crédito no SPC ou Serasa. Contudo, sob a ótica do consumidor, não é uma decisão recomendável. Para compensar o risco de inadimplência, as financeiras cobram juros exorbitantes embutidos nesses boletos.

Qual tem sido o impacto das apostas on-line (bets) no endividamento das famílias?
As apostas online tornaram-se mais um elemento de comprometimento da renda. Vemos relatos de pessoas tomando crédito, e um crédito caro, para apostar. Há um desvio de percepção: muitos encaram a aposta como investimento, quando na verdade trata-se de entretenimento. A família deixa de consumir bens e serviços essenciais ou de quitar dívidas, prejudicando o bem-estar familiar e a economia local.

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