É preciso mudar a estrutura

editorial

É preciso mudar a estrutura

É preciso mudar a estrutura
(Foto: Divulgação)

“Começa a valer lei que autoriza venda de spray de pimenta para mulheres”. “Brasil bate recorde de feminicídios pelo quarto ano seguido”. Duas manchetes em jornais de circulação nacional. Dois dias de diferença. Um único diagnóstico possível: o Brasil não faz ideia de como vai lidar com a crise social e a verdadeira epidemia de feminicídios. Só no ano passado foram 1.571 vítimas, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O spray de pimenta pode até ser muito útil e efetivo em casos específicos, mas a única solução possível e eficaz é virar o jogo a nível de educação dos homens.

Quando a saída passa a ser achar maneiras de armar mulheres, a primeira impressão pode até ser positiva, mas no cerne, realmente não é. É sinal de que estamos dando a elas um “te vira”, uma medida para tentar, quem sabe, se salvar diante de uma violência que parece quase inevitável. Meio que um “quando chegar a tua vez, tenta isso”. Não resolve o problema, que é estrutural de uma sociedade adoecida e que foi baseada em machismo historicamente, sem nunca realmente se pensar em reposicionar as peças do seu tabuleiro. Antes de ensinar que uma mulher vai precisar se defender em algum momento, é preciso que o foco esteja em ensinar o homem a não atacar.

Há, claro, a mulher que vá ler este texto e pensar “mas eu sempre me comportei e nunca aconteceu nada”, e o homem que vai dizer “ué, não me põe nesse balaio aí, eu jamais estupraria ou mataria alguém”, mas também torna-se uma visão extremamente reducionista e até egoísta. O problema é coletivo. Mesmo que não aconteça na nossa casa, acontece na casa dos vizinhos, dos parentes ou dos colegas. Poderá ser cometido por nossos irmãos ou filhos. Por isso, jogar luz a esse tema é essencial.

O tema da violência de gênero precisa ser debatido à exaustão em todos os núcleos sociais. Na sala de aula. Na imprensa. Em casa. Na igreja. Na empresa. Só com a conscientização constante e com a ideia de que ninguém é dono de ninguém, de que não é não, e de que está tudo bem terminar um relacionamento ou levar um fora, e que isso não é o fim do mundo, é que de fato vamos passar a viver em paz. O problema é estrutural e a solução é a igualdade.

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