A safra 2025/2026 confirmou a força da soja na economia do campo na Zona Sul do Rio Grande do Sul. Mesmo sem atingir as expectativas de produtividade, a cultura movimentou quase R$ 3 bilhões e fez circular recursos em todos os municípios da região. Somada ao arroz irrigado, a produção agrícola colocou mais de R$ 4,6 bilhões em circulação na economia regional.
Os números mostram um cenário semelhante ao observado no restante do Estado. A produção foi impactada pela má distribuição das chuvas durante o verão, especialmente nos períodos de maior demanda hídrica das lavouras. Ainda assim, houve crescimento em relação à safra anterior.
Segundo o engenheiro agrônomo e extensionista da Emater-RS/Ascar, Evair Ehlert, os produtores conseguiram colher sem grandes problemas, mas a produção ficou abaixo do esperado. “A razão fundamental foi a distribuição muito irregular das chuvas justamente nas fases em que as plantas mais precisavam de água”, explica.
A exceção ficou por conta das áreas irrigadas, que representam uma parcela pequena da produção regional. No caso da soja, a irrigação não ultrapassa 2% da área cultivada.
Soja domina o campo e a economia
Presente nos 23 municípios da Zona Sul, a soja ocupa mais de 500 mil hectares e é a principal cultura da região. Na safra 2025/2026 foram colhidas 1,41 milhão de toneladas, acima das 1,27 milhão de toneladas registradas no ciclo anterior. O valor bruto gerado chegou a R$ 2,82 bilhões.
Atualmente, a região reúne 2.731 produtores de soja. Canguçu lidera em número de sojicultores, com 915 produtores, e divide com Piratini o posto de maior área cultivada, com cerca de 57 mil hectares cada. Já São Lourenço do Sul foi o município que mais produziu, alcançando quase 180 mil toneladas.
A cultura tem efeitos em toda a cadeia econômica regional. Entre alguns impactos citados pela Emater estão a expansão da mecanização rural, o estímulo à sucessão familiar no campo e a recuperação de áreas degradadas ou subutilizadas, entre outros.
Por ser uma commodity exportada, a soja também traz recursos de fora do Estado e do país para a economia regional.
Arroz produz bem, mas preços não ajudam
Se a soja preocupa pela produtividade, o arroz vive um problema diferente: os preços. Cultivado integralmente sob irrigação, o cereal teve desempenho dentro dos padrões históricos da região. O destaque foi Santa Vitória do Palmar, que produziu quase 600 mil toneladas e gerou uma renda bruta estimada em R$ 1,8 bilhão.
Apesar disso, os produtores enfrentam dificuldades devido aos baixos valores pagos pela saca. Segundo Ehlert, os preços atuais não cobrem os custos de produção, o que gera insegurança para a próxima safra. A tendência é de uma pequena redução da área cultivada em 2026/2027.
Clima reforça necessidade de manejo
Diante da sequência de eventos climáticos extremos, a Emater defende que os produtores ampliem os investimentos em conservação do solo e gestão da água. As medidas aumentam a capacidade de retenção de água em períodos de estiagem e reduzem perdas por erosão durante chuvas intensas.
Entre as práticas consideradas essenciais estão:
- sistema de plantio direto;
- terraceamento para escoamento do excesso de água;
- descompactação do solo;
- uso de plantas de cobertura;
- manutenção da palhada nas lavouras.
Perspectivas
A expectativa para a próxima safra é de manutenção da área plantada com soja e a torcida por condições climáticas mais favoráveis. Há previsão de chuvas mais regulares. Ainda assim, o endividamento de parte dos produtores e as dificuldades de acesso ao crédito rural seguem como desafio.
Outra preocupação envolve o seguro rural. Embora seja considerado uma ferramenta importante de proteção, a redução da subvenção federal tem deixado mais cara a contratação para os produtores.
Mesmo assim, a perspectiva para os próximos meses é de recuperação nos preços dos grãos. “Muitas regiões produtoras de grãos no mundo terão impactos com o El Niño. O primeiro deles é a redução da produção dos grãos e os estoques mundiais não conseguirão suportar, desequilibrando demanda e oferta. Outro fator é a crescente necessidade de grãos para suprir a demanda por geração de biocombustíveis”, estipula Ehlert.
