Geleias, doces caseiros, suculentas, artesanato e até lingerie dividiram espaço nesta quinta-feira (23) no Largo do Mercado, no Centro de Pelotas. A ocasião foi a “amostra de comercialização” do programa Mulheres em Campo – Empreendedorismo, uma parceria entre a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) da Prefeitura e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que reúne 12 agricultoras do interior do município em um curso de capacitação de 40 horas.
Para muitas delas, foi a primeira vez que viram seu trabalho exposto fora da propriedade rural. É o caso de Luciane Moraes Castro Norenberg, 51, que veio da colônia São Domingos, no interior de Turuçu, para mostrar seus doces de abóbora, morango, figo e bergamota. Ela resume em poucas palavras o que sentiu ao ver os potes organizados na banca: ver os produtos assim expostos faz os olhos brilharem.
A iniciativa nasceu da busca ativa feita pelas equipes da SDR junto a lideranças distritais e subprefeituras, identificando mulheres que já produziam nas colônias, mas que precisavam de apoio para transformar essa produção em negócio. O objetivo do programa é fortalecer o empreendedorismo feminino no meio rural, com foco em gestão, capacitação e valorização da produção das agricultoras, passos que, segundo os organizadores, contribuem diretamente para a geração de renda e para o desenvolvimento sustentável das propriedades.
A instrutora do Senar Gabriele Vargas de Ávila explica que o curso funciona como uma primeira estrutura para mulheres que já produzem, mas nunca havia pensado no negócio como um todo, que vai da precificação até a rotulagem exigida por lei. Segundo ela, o Senar é financiado por um imposto recolhido do próprio setor rural e devolvido em forma de aprendizado, com instrutores que vão até onde estão as turmas para ensinar desde noções de empreendedorismo até técnicas como pintura em tecido ou produção de ovos e hortaliças.
“A exposição no Mercado Público é, na prática, um dos módulos do curso, sendo que as participantes testam a aceitação dos produtos que planejaram nas semanas anteriores”, explica Gabriele. Após elas seguem para o módulo final, marcado para a próxima semana, quando o curso, iniciado no começo de julho e com 40 horas de duração.
Superação
Para a instrutora, as participantes são guerreiras e batalhadoras. “Elas sabem o que querem, e para quem o curso funciona como um empurrão para que compreendam o real significado de seu papel dentro da propriedade”, destaca. Segundo ela, o último módulo do curso é dedicado justamente ao autoconhecimento, com o objetivo de elevar a autoestima das participantes.
Um dos pontos centrais do aprendizado, segundo Gabriele, é entender que produzir não basta: é preciso saber quanto custa produzir. Ela cita o exemplo da chimier, doce tradicional da região colonial, para lembrar que o valor de um produto vai muito além do custo da fruta usada nele. Na visão da instrutora, é no momento da venda, quando a produtora efetivamente comercializa e vê o retorno financeiro, que nasce uma nova relação dessas mulheres com o próprio trabalho.
Da cozinha para o Instagram
Fabiane Holtz, 41, mora na Colônia Osório e produz suculentas há cerca de dez anos. Para ela, o curso tem ajudado a profissionalizar um trabalho que já existia informalmente. “O empreendedorismo feminino carrega uma valorização especial, já que a mulher acumula tarefas domésticas e ainda assim busca construir algo próprio”, define.
Fabiane conta que não se via no patamar em que está hoje quando começou, mas que o conhecimento foi crescendo aos poucos ao longo do caminho. Entre as maiores dificuldades enfrentadas, ela cita a precificação, reconhecendo que muitas vezes não sabia valorizar corretamente o próprio produto, e aponta esse tema como um dos aprendizados mais importantes do curso. Outro desafio é encarar as redes sociais, hoje incorporadas à divulgação de seu trabalho, incluindo o uso do Instagram, uma ferramenta que começou a explorar com mais confiança depois da capacitação.
Descoberta
Lembram da Luciane de Turuçu? Pois foi vestida de rosa para o evento, em referência ao curso dedicado à mulher do campo. A agricultora descreve a experiência como desafiadora, já que concilia a rotina de dona de casa, mãe e trabalhadora rural com a nova etapa de empreender, mas destaca que o processo tem sido também de autodescoberta, aprendendo a embalar, personalizar e vender seus produtos.
Segundo a instrutora Gabriele do Senar, o processo vai além de ensinar técnicas de gestão, e busca mudar a forma como essas mulheres enxergam o próprio trabalho. “Cada turma que passa pelo programa planta sementes que, normalmente, se transformam em árvores grandes”.
A demanda pelo curso Mulheres em Campo é anual e parte de solicitação do sindicato rural, que ajuda a definir a programação de capacitações oferecidas pelo Senar na região ano a ano. A expectativa da SDR e do Senar é que a exposição no Mercado Público sirva de vitrine para que as agricultoras ganhem confiança e clientes antes de seguir para as feiras de agricultura familiar da cidade.
