A cidade batizada com o nome de uma embarcação rústica demonstra a importância – e a reverência – ao recurso mais importante do mundo. Pelotas é cercada por grandes “artérias naturais”, como o Canal São Gonçalo, a Lagoa dos Patos e o Arroio Pelotas que, pela relevância histórica e natural, ganhou um documentário. O protagonista dos quatro episódios é reconhecido como patrimônio cultural do Rio Grande do Sul. Margens, vidas e cores (@arroiopelotasdoc) é uma produção da jornalista Michele Ferreira e do fotógrafo Paulo Rossi, com a colaboração do jornalista Leandro Vieira. O historiador Caiuá Al-Alam é um dos 27 entrevistados que participaram de mais de 20 horas de gravações. Os episódios estão disponíveis no YouTube.
Onde fica a nascente do Arroio Pelotas?Michele: Ele nasce no primeiro distrito de Canguçu, em Canguçu Velho. Ali é a primeira nascente, a mais distante do Arroio Pelotas. Depois vem vindo pela Serra dos Tapes, até chegar aqui e se juntar com o Canal São Gonçalo, onde é a foz. De leito principal, são cerca de 60 km.
Como surgiu a vontade de contar a história do Arroio Pelotas?
Paulo: Sempre gostei muito de pautas sobre o meio ambiente. Em 2013, a Michele e eu produzimos um material especial sobre ele para o Diário Popular. Faziam dez anos que o arroio havia se tornado patrimônio cultural do Estado. A ideia era registrar o que a lei havia proporcionado ao transformá-lo em patrimônio. Navegando pelo arroio, conversamos com muitas pessoas e nasceu uma série de três reportagens, pela qual recebemos o Prêmio da Associação Riograndense de Imprensa. Depois de muitos anos, conversando sobre reportagens e futuros projetos, chegamos à ideia de transformar aquele trabalho em um documentário, levando aquelas histórias para a linguagem audiovisual. Revisitamos os locais, conversamos com as mesmas pessoas e com novos personagens.
Nesse período, muitas coisas mudaram. O que vocês destacariam?
Michele: A questão do acesso – ou da falta de acesso – ao arroio. Em 2013, essa já era uma necessidade: a existência de parques públicos que permitissem à população conhecê-lo melhor e compreender sua importância, inclusive para cobrar políticas públicas de preservação, cuidado e valorização.
Qual a importância histórica e econômica do arroio para a cidade retratada no documentário?
Caiuá: Pelotas, desde que o projeto colonial se estabeleceu aqui, esteve conectada ao arroio. Temos que pensar não só na produção, mas também nas pessoas que foram trazidas para cá, sequestradas para trabalhar durante o período da escravidão. É um arroio em que a dor está muito presente, mas também há muita resistência. Falamos dessa dor, mas não ficamos apenas nela. Quisemos mostrar as resistências e os protagonismos. Por exemplo, a Mãe Gisa traz a dimensão da cidade banhada pelas águas e vinculada aos orixás femininos. Outra parte interessante aborda um assentamento dedicado ao orixá Ogum, encontrado em uma das charqueadas, que posteriormente inspirou um espetáculo de Daniel Amaro.
O que mais emocionou vocês durante todo esse processo, desde 2013?
Paulo: O fotojornalista não vive apenas a própria vida; vive várias outras ao longo do dia. Para fazer uma foto, preciso conhecer a história daquele personagem. Para mim, é essa captação de histórias que se conecta às imagens. Foram 27 histórias que transformam a gente como pessoa. Elas vão nos apresentando um outro mundo.
Michele: O documentário permitiu conhecer o arroio pelo olhar das pessoas. Por isso, dizemos que ele é o protagonista que vai costurando todas essas histórias. E o jornalismo tem isso: a capacidade de nos emocionar e também de nos transformar como pessoas.
