A nova tarifa anunciada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros amplia a perda de competitividade da indústria arrozeira nacional no mercado americano. Além da taxa de 25%, o arroz brasileiro agora está sujeito à sobretaxa de 12,5% anunciada pelo governo americano nessa semana. O mesmo não ocorre com os principais concorrentes do Mercosul, o que deixa a produção brasileira vulnerável no cenário de exportação.
Na prática, para um embarque de 50 toneladas de arroz beneficiado, um importador norte-americano paga a mesma tarifa MFN de US$ 700, independentemente da origem do produto. A diferença é que, no caso do Brasil, incide também a sobretaxa de 37,5% sobre o valor aduaneiro. Já o arroz do Uruguai, Paraguai e Argentina entra apenas com a tarifa MFN, tornando-se mais competitivo.
O impacto é ainda maior no Rio Grande do Sul porque o Estado responde por cerca de 70% da produção nacional de arroz e abriga praticamente toda a indústria exportadora de arroz beneficiado. A Metade Sul concentra aproximadamente 90% dessas exportações, tendo Pelotas como um dos principais polos industriais. O mercado americano é o terceiro maior comprador do arroz beneficiado brasileiro, absorvendo quase 20% das exportações desse produto.
Trabalho de duas décadas ameaçado
Segundo o diretor de Exportação e Canais Digitais da Josapar, Luciano Targa Ferreira, a diferença de custo coloca o produto brasileiro em desvantagem direta. “Embora seja a metade da tarifa, obviamente nos complica, porque 25% em relação a um produto similar do Uruguai, da Argentina e do Paraguai, realmente é uma situação muito complicada.”
O executivo ressalta que a presença da empresa nos Estados Unidos foi construída ao longo de muitos anos e que mudanças tarifárias comprometem esse esforço. “Ao longo de 20 anos, a gente vem desenvolvendo isso no mercado americano e vem uma situação dessa, realmente, que atrapalha muito.”
Crédito ajuda, mas não resolve
Como forma de compensar empresas afetadas pelas tarifas, o governo federal lançou o programa Brasil Soberano, que disponibiliza R$ 18,5 bilhões em linhas de crédito. Para Ferreira, a iniciativa é positiva, mas não elimina os efeitos da perda de competitividade. “É óbvio que isso ajuda. Não resolve, mas ajuda porque o mercado internacional não se conquista da noite para o dia.”
Segundo ele, abrir novos mercados exige um trabalho de longo prazo. “Só vai efetivar alguma coisa algum tempo depois. A minha experiência é que tenho clientes que comecei a prospectar hoje e fecho negócio três, quatro anos depois, muitas vezes. Então, é um trabalho de longo prazo. Essas situações de intervenção sempre atrapalham o desenvolvimento dos negócios.”
Farsul crê em inviabilização da exportação
A Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), acredita que a taxação extra inviabiliza a exportação do arroz gaúcho para os Estados Unidos. Segundo o vice-presidente da federação, Fernando Rechsteiner, a medida do governo federal é paliativa e a única solução é a revisão da taxação por parte do governo americano. “Logicamente o desejável é o retorno à normalidade, só que aí dependemos de vontade política dos EUA, uma vez que não há argumento técnico que justifique tal tarifação. Enquanto forem mantidas tais tarifas não teremos vendas para os EUA.”