Quando se fala em centros de excelência em pesquisa no Brasil, cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro podem vir primeiro à cabeça. Mas o trabalho desenvolvido há décadas por pesquisadores em Pelotas coloca a Princesa do Sul em posição de destaque em uma das áreas mais importantes para a população: a saúde.
Os dados mais recentes do ranking Research mostram essa trajetória. A Universidade Federal de Pelotas (UFPel) aparece na quarta colocação entre as instituições brasileiras com pesquisas em Medicina, enquanto cientistas ligados à cidade se destacam entre os mais influentes do país.
Entre os pesquisadores, o nome de César Victora lidera a lista. Referência internacional em epidemiologia, ele aparece como o cientista número um do país na área da Medicina e reúne mais de 153 mil citações acadêmicas. Victora é um dos brasileiros de maior impacto no cenário mundial.

Victora é o cientista com maior número de citações acadêmicas no país (Foto: Divulgação)
Por trás dos números existe uma história que começou nos anos 1980. O trabalho foi desenvolvido em conjunto com Fernando Barros, hoje vinculado à Universidade Católica de Pelotas (UCPel). “No ano de 1980, eu e o professor Fernando Barros começamos a estudar saúde da criança e, principalmente, no ano de 1982, quando se criou a coorte de 1982, que é um dos maiores estudos do mundo”, relembra Victora.
As chamadas coortes de nascimento acompanham as pessoas ao longo da vida. Em Pelotas, os estudos continuaram com edições em 1993, 2004 e 2015. Atualmente, os pesquisadores trabalham na versão de 2026. Após a conclusão, a cidade será a única no mundo com cinco coortes de nascimento acompanhadas por mais de 40 anos.
Ao longo desse período, os levantamentos ajudaram a produzir evidências sobre temas como desenvolvimento infantil, nutrição, amamentação, desigualdades sociais e saúde pública.
A dimensão e a continuidade das pesquisas colocaram a cidade no radar da ciência internacional, segundo Victora. “São estudos muito difíceis de fazer, requerem muito tempo e muita dedicação. Por isso Pelotas entrou no mapa mundial da ciência”.
Impacto além da academia
O reconhecimento não se limita ao círculo científico. Algumas descobertas feitas a partir dos estudos desenvolvidos em Pelotas acabaram influenciando políticas públicas adotadas em diversos países.
Entre elas está a comprovação dos benefícios do aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida. As evidências produzidas pelos pesquisadores ajudaram a embasar recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
Outro exemplo é a participação na construção de curvas internacionais de crescimento infantil, atualmente utilizadas por cerca de 140 países. “Estamos saindo muito bem tanto no ranking acadêmico, científico, como no ranking de políticas públicas, como um grupo que influencia políticas no Brasil e no exterior”, afirma o epidemiologista.
O protagonismo de Pelotas na pesquisa em saúde também é sustentado por outras instituições. Na Universidade Católica de Pelotas (UCPel), pesquisadores ligados aos programas de pós-graduação em Saúde do Comportamento e Saúde no Ciclo Vital também aparecem entre os destaques de rankings nacionais e internacionais.

Coorte da UFPel acompanha cinco gerações (Foto: Divulgação)
Segundo o coordenador de Pesquisa e Pós-Graduação Stricto Sensu da UCPel, Ricardo Pinheiro, o reconhecimento valida a qualidade da produção científica desenvolvida pela universidade. “A presença de pesquisadores da UCPel entre os destaques nacionais e internacionais consolida a instituição no mapa mundial da produção científica qualificada”, afirma.
A força da epidemiologia
O pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da UFPel, Marcos Corrêa, observa que boa parte do destaque alcançado pela universidade está ligada ao trabalho desenvolvido pela Epidemiologia, já que os pesquisadores mais bem posicionados no ranking são vinculados à área. Segundo ele, a tradição construída ao longo de décadas ajudou a consolidar outros centros de excelência na área da saúde.
“Hoje, além do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, que tem nota 7 da Capes, a nota máxima da avaliação, a UFPel conta com os programas de Pós-Graduação em Odontologia e em Biotecnologia, que também possuem nota 7. Isso mostra o protagonismo da universidade na área da saúde”, afirma.
Renovação e novos investimentos
Para manter o protagonismo, a universidade aposta na renovação de pesquisadores e na ampliação da infraestrutura de pesquisa. Entre os projetos em andamento estão a construção de um centro de pesquisa multiusuário no Campus Capão do Leão e do Centro Integrado de Inovação e Tecnologias Analíticas Avançadas (Citeca), também no Capão, viabilizados com recursos captados junto à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Para Ricardo Pinheiro, a projeção internacional alcançada pelas instituições da cidade também fortalece a capacidade de captar recursos e ampliar redes de colaboração científica. Ele destaca que o reconhecimento facilita o diálogo com agências de fomento e centros de pesquisa do exterior, facilitando o financiamento de novos projetos.
