A tradição doceira de Pelotas, reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), passará por uma reavaliação em 2028 para a manutenção do título. Com o declínio na produção dos doces coloniais de frutas, como marmelada e passa de pêssego, a cidade corre o risco de perder o reconhecimento.
Atualmente, apenas uma família produz a passa de pêssego e a marmelada, em patamar industrial. Ela é formada por Cibele, o marido, a filha e seu genro, que mantém a Doces Vô Jordão ativa desde 1965 na Colônia Santo Amor, divisa entre Pelotas e Morro Redondo, integrando o território antes conhecido como a “Antiga Pelotas”.
Presente na 32ª edição da Fenadoce, a família reveza-se entre a produção e a comercialização, trazendo novidades para a feira, com o objetivo de conquistar novos clientes e seguir mantendo a tradição viva.
Como é o trabalho da família atualmente?
A nossa agroindústria é formada por quatro pessoas. Além de mim, são meu esposo, minha filha e meu genro. A gente trabalha, enquanto família, em um saber que a gente aprendeu com o meu sogro, o Vô Jordão. Tradicionalmente, a família dele, todos os irmãos dele trabalhavam com doce. Quando inaugurou a nossa agroindústria, a gente quis homenagear ele e demos esse nome. Eu brinco que ele é o nosso controle de qualidade, né? Ele tem 82 anos e, até hoje, toda noite ele come uma marmelada com leite.
O que considera que pode ter acontecido para a produção tradicional ir se perdendo ao longo do tempo?
Acredito que tenha se tornado difícil pela questão da pouca valorização que teve anteriormente com o doce de fruta. Perdeu o gosto dos jovens e as famílias foram deixando de fazer. Por ser um trabalho mais árduo, da lavoura, foram deixando de fabricar, foram indo para cidades, estudando, e essa tradição foi se perdendo. Com o título que a região da Antiga Pelotas recebeu teve um despertar para a importância, de que não é só o doce fino que está no patrimônio. Acho que os mais jovens têm que investir mais e acreditar. No nosso papel, temos muita responsabilidade de seguir com essa tradição.
O que vocês têm feito para que mais jovens conheçam os doces tradicionais de Pelotas?
Da nossa parte, a gente busca participar de feiras por todo o Rio Grande do Sul, e incentivamos mesmo o consumo. Quando passa uma criança a gente oferece uma prova, sabemos que é um doce diferente, mas que vale muito a pena. Tivemos uma feira no Cassino, no verão, e foi bem na época do marmelo. Foi bem interessante, porque a gente levou a fruta, os galhos da árvore, as pessoas cheiravam e conheciam uma fruta que é tão diferente, que poucos conhecem, então isso gerava muita curiosidade. Muitos perguntam, ‘mas a marmelada é feita do quê?’ e nós sempre explicamos.
A gente também participa de várias oficinas em Morro Redondo, e lá eles têm um trabalho bem legal com as escolas. Eu fui às escolas, não só com a marmelada, mas também com a pasta de pêssego, que é o doce mais antigo de Pelotas e nós é que produzimos. Nós também fazemos oficinas nas Festas do Doce Colonial. Então, estamos tentando de todas as formas fazer os jovens conhecerem o doce mais antigo de Pelotas.
Como é a produção da passa de pêssego?
Temos um pomar com praticamente dois mil pés de frutas. A passa de pêssego é realmente bem difícil. Acredito que a grande parte das pessoas que pararam de fazer é pela dificuldade. Ela leva, em média, 10 dias para ficar pronta. Então, requer bastante dedicação. Ela passa por uma calda fina, descansa 24 horas, depois ela vai para uma outra calda mais grossa, mais 24 horas, até o processo de armar a pasta, como a gente chama, que é a montagem do doce. A gente pega um pêssego inteiro, depois recheia com o próprio doce no meio, fecha e vai para uma desidratadora. E lá ela fica de cinco a sete dias e temos que virar todos os dias de lado, até ela ficar com a casquinha molhadinha por dentro. Um quilo de passa leva cinco quilos de pêssego in natura.
O processo para fazer a passa continua o mesmo?
Cada pêssego passa, em média, na nossa mão, em torno de cinco, seis vezes. Porque a gente tem que colher, tem que descaroçar ele. Armazena, cozinha, arma, vira diariamente. Então, é um processo que é 100% artesanal. Mudou algumas coisas comparando com a época do meu sogro, mas o processo de fazer não mudou. O que mudou foram os equipamentos, mas o processo é exatamente igual. Antigamente ele era seco ao sol, hoje em dia a gente tem uma desidratadora, que a Emater desenvolveu para nós. Antes eram usados tabuleiros de madeira, e hoje em dia a gente usa formas de alumínio, inox, mas o processo segue o mesmo e o resultado dele também.