Quem passa pelo Centro de Pelotas percebe um aumento no número de placas anunciando vendas facilitadas no boleto ou em crediários próprios. A modalidade, que foge do crédito tradicional, vem sendo adotada por lojas para atender consumidores com dificuldade de aprovação em financiamentos convencionais.
O crescimento ocorre em um cenário de elevado endividamento das famílias brasileiras. Segundo o presidente do Sindilojas Pelotas, Renzo Antonioli, cerca de 82% das famílias estão endividadas e aproximadamente 33% possuem alguma restrição de crédito, reduzindo o universo de consumidores aptos a comprar por cartão de crédito ou financiamento convencional.
Esse movimento é um sintoma da atual conjuntura econômica brasileiro. Quem avalia dessa forma é o economista Eduardo Tillmann. Segundo ele, o endividamento e o corte no acesso aos cartões de crédito e financiamentos bancários tradicionais obrigam as empresas a acharem formas alternativas de manter o giro. “Como as lojas precisam vender para garantir o giro e evitar que o faturamento despenque, elas não podem depender apenas de clientes com o nome limpo. A saída que encontram é oferecer o boleto sem consulta, onde o próprio lojista assume o risco do calote, numa espécie de resgate do antigo crediário próprio”, explica.
Compra é facilitada, mas produto fica mais caro
Apesar de facilitar o acesso a produtos, o formato costuma encarecer o produto final. “Embutindo uma taxa de juros altíssima para cobrir as perdas com a inadimplência, acaba sendo uma estratégia que mantém o consumo rodando, mas que cobra um preço alto do consumidor no longo prazo”, diz Tillmann.
Segundo Andrei Menezes, gerente da Total Cell, a modalidade foi implantada pela rede em novembro de 2025. O sistema de venda através de instituições financeiras torna o produto mais caro, mas atrai pelo baixo valor da entrada e facilidade de acesso. “É sustentável porque o juro é alto. O cliente às vezes só quer saber o valor de entrada e principalmente o valor da parcela”, conta Menezes.
O sistema mudou o perfil das vendas da empresa que está há quatro anos em Pelotas. Com 11 anos no mercado de eletrônicos, já são 47 lojas no Rio Grande do Sul e no Paraná. O foco das vendas hoje, segundo Menezes, é nas classes D e E, que tem dificuldade para acessar os créditos tradicionais. O gerente afirma que a estratégia impulsionou o faturamento da rede. “Nosso faturamento mensal passou de cerca de R$ 1,7 milhão para mais de R$ 3 milhões. Aproximadamente R$ 1 milhão desse resultado já vem das vendas por boleto.”
Financeiras assumem o risco
No modelo adotado pela loja, o valor do aparelho é recebido integralmente por meio da instituição financeira, que assume a operação de crédito e o risco de inadimplência. Segundo o gerente, a empresa recebe o valor independentemente de o cliente quitar ou não as parcelas. “A gente vende o produto. Alguns dias depois recebe o valor final. Se paga ou não pagou, não importa pra gente”, afirmou. Ele acrescenta que, após a venda, “o negócio fica com a financeira”.
Para clientes com restrições no CPF, a financeira normalmente exige um valor de entrada, que pode variar conforme a análise de crédito. “Como a pessoa já está com o nome sujo, a financeira pede um valor de entrada, um valor fixo mais ou menos. Às vezes fica R$ 100, R$ 300, depende”, explicou. Caso haja inadimplência, a consequência recai sobre o consumidor. “Se ele não pagar, automaticamente pode sujar mais o nome dele.” Além disso, como garantia, a instituição financeira pode bloquear o aparelho. “A financeira coloca uma trava de segurança no aparelho. Se caso não pague, o aparelho é bloqueado. Tudo vai no contrato”, conclui.
