O choro, um dos gêneros mais genuínos da música brasileira, vive um momento de celebração e despedida em Pelotas. Após anos de dedicação à salvaguarda dessa tradição, o projeto de Ensino e Extensão Encontros no Choro – Introdução e Vivência, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), encerra o seu ciclo atual com duas apresentações esta semana. O concerto didático ocorre nesta segunda-feira (13), às 19h, no recém-reinaugurado auditório do Centro de Artes da UFPel. A entrada é gratuita.
O grande encerramento será no Theatro Sete de Abril, nesta sexta-feira (17), às 19h, integrando a aguardada programação de reabertura do histórico teatro pelotense. Para este evento os ingressos estão esgotados, porém a organização orienta que os interessados sem ingresso compareçam ao local para aguardar em uma fila de espera por eventuais desistências.
O fechamento do lendário Bar Liberdade, que por décadas foi o principal reduto dos chorões pelotenses, acendeu um alerta na comunidade cultural: a tradição corria o risco de ser descontinuada. Foi nesse cenário que, no segundo semestre de 2023, os professores Rafael Henrique Velloso e Raul Costa d’Ávila idealizaram o projeto para estruturar pedagogicamente o ensino do gênero, incentivar a prática instrumental e formar novas gerações de músicos e ouvintes.
Do regional à grande orquestra
Os espetáculos serão divididos em dois momentos que mostram a versatilidade e a evolução do projeto. A primeira parte traz o Regional Encontros no Choro, composto pelos professores e músicos profissionais que lideraram as oficinas: Lucas Borba (violão 7 cordas), Fabrício Moura (violão), Pedro Nogueira (cavaco solo), Julinho do Cavaco (cavaco base), Gabriel Pinheiro (percussão), Everton Maciel (pandeiro), Gustavo Baldi (clarinete), Manuh Graciano (flauta), além dos professores Raul d’Avila (flauta) e Rafael Velloso (saxofone). O Regional apresentará a célula básica do choro, focando em autores da “velha guarda” pelotense.
Na segunda parte, o palco será tomado pela Orquestra Encontros no Choro, um imenso grupo com mais de 46 instrumentistas, incluindo os alunos do projeto. Com arranjos inéditos e uma instrumentação estendida que soma cordas dedilhadas, sopros, contrabaixo e percussão, a orquestra dará voz a um repertório autoral e contemporâneo.
O programa destaca a riqueza local, incluindo obras de compositores da região como Paulinho Martins, Avendano Júnior, Arnóbio Madruga “Toinha”, Aloyn Soares, Jorge Meleti, além dos próprios coordenadores. O repertório também homenageia nomes nacionais, como Pixinguinha, a histórica pianista carioca Carolina Cardoso de Menezes e a flautista santista Júlia Alves, ex-aluna da universidade.
Legado para o futuro
Embora o projeto estruturado nos moldes atuais chegue ao fim, motivado também pelo afastamento de Rafael Velloso para o período do pós-doutorado, o legado construído desde 2023 está consolidado, avalia o professor. Com o apoio inicial de uma emenda parlamentar e a gestão da Fundação Simon de Da Silveira, o projeto expandiu suas atividades do Centro de Artes para o Conservatório de Música em 2025, profissionalizando sua equipe de ensino.
“A gente está deixando a cena de choro muito mais rica e viva do que estava antes. Formamos não só músicos, mas público para essa cena”, avalia, ao destacar o surgimento de novos grupos liderados por jovens músicos na cidade.
Para garantir que o conhecimento não se perca, o material didático desenvolvido ficará disponibilizado no site oficial do Encontros no Choro. Além disso, o mapeamento da memória musical continuará vivo por meio do acervo digital integrado à Rede de Museus da UFPel, que recentemente ganhou um desdobramento focado na história dos músicos negros do choro em Pelotas.
