Há quem defina o empreendedorismo como a arte de identificar oportunidades onde outros enxergam apenas rotina. Para o cientista e industrial Fabrício Ogliari, natural de Porto Alegre, e sua esposa e sócia, a rio-grandina Aline Ogliari, empreender é algo ainda mais preciso: é a capacidade de transformar a ciência dos materiais em soluções exatas para os desafios reais do cotidiano. Junto, o casal uniu suas origens na metade sul do Estado para transformar o conhecimento técnico em duas histórias de sucesso industrial em Pelotas, em segmentos completamente diferentes: a odontologia de alta performance e a construção civil premium.
A trajetória de Ogliari desafia o roteiro tradicional. Cirurgião-dentista de formação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 2004, o porto-alegrense confessa que nunca vestiu o jaleco para o atendimento clínico convencional. Sua paixão não estava no atendimento diário ao paciente, mas sim nas fórmulas que tornavam os tratamentos possíveis.
E essa visão diferenciada da profissão começou a se delinear quando o Ogliari cursou a disciplina de materiais dentários no início da graduação. Perceber que os profissionais da odontologia precisam de tecnologia para oferecer o melhor tratamento aos seus clientes, mudou o rumo da sua vida.
“Com base nisso, quando eu me formei, eu fui fazer mestrado e doutorado na área da Química de Materiais, que a gente chama de materiais dentários. Assim começa a minha história de gostar de materiais odontológicos e de produtos químicos. Sou um dentista que nunca foi para o consultório. E sempre atuando no desenvolvimento de produtos, na pesquisa e desenvolvimento de novos produtos”, relembra o industrial.
Salto global com a Yller
Após anos dedicados aos estudos na atuação na indústria química, Ogliari e Aline, que também nunca atuou em consultório, decidiram que era o momento de criar o próprio legado. Em 2012, fundaram em Pelotas a Yller Biomateriais, uma empresa focada na inovação rigorosa de insumos odontológicos.
Rapidamente o empreendimento chamou a atenção do mercado global pela qualidade de suas patentes. O crescimento foi tão vertiginoso que, em 2019, atraiu o Grupo Straumann – a maior multinacional de odontologia do mundo, que adquiriu a empresa pelotense.
A venda, contudo, não afastou o pesquisador e industrial da sua criação. Ogliari permanece até hoje no comando da operação como CEO, liderando uma equipe de cerca de 100 colaboradores em Pelotas e uma unidade fabril em Curitiba, no Paraná.
O sucesso financeiro, contudo, é encarado por ele como mera consequência de um foco quase obstinado pela solução de problemas. “Eu sempre trabalhei com inovação e tenho uma convicção, uma premissa de que inovação só serve para resolver problemas reais. Então, desde a concepção do produto, ficava pensando que tipo de problema o paciente tinha na cadeira do consultório, que produto poderia ser importante para ajudar a melhorar alguma situação de saúde bucal dele, quais materiais atenderiam melhor a essas condições? Depois, ir para a bancada química. Beleza, temos esse problema a ser resolvido”, argumenta.
O desafio das cores
Com a Yller consolidada sob a bandeira de uma multinacional suíça, o inquieto espírito empreendedor do casal buscou um novo horizonte: a construção civil. Eles chegaram a pensar em fundar uma construtora, porém sabiam que a expertise dos dois estava na indústria. “Nós pensamos onde poderíamos unir o mercado que nós queríamos atuar, que era a construção civil e a indústria”, relembra.
Depois de analisar as possibilidades, escolheram a indústria de tintas. “Era um segmento que nós gostaríamos de atuar dentro da construção civil. Porque também é uma indústria química, inclusive com alguns químicos muito parecidos com os usados nos materiais odontológicos”, explica Ogliari.
Nascia assim, em 2022, a Oglee Tintas, cujo nome faz alusão ao sobrenome do fundador. Os dois primeiros anos foram dedicados estritamente à pesquisa, licenciamento e desenvolvimento de fórmulas. Em meados de 2024, a marca estreou no mercado com um modelo de negócios diferenciado para o setor.
Na busca por ir além do que é praticado pelas marcas tradicionais, que dependem de grandes redes de varejo e distribuidores multimarcas para chegar aos consumidores, a Oglee optou por uma estratégia verticalizada: vender exclusivamente em lojas próprias, direto de fábrica.
Atualmente, a empresa conta com três lojas em Pelotas, uma em Itapema, Santa Catarina, e uma em Curitiba, no Paraná, empregando cerca de 20 funcionários. O modelo elimina intermediários, garantindo preços competitivos em produtos estritamente de linha premium e um atendimento altamente consultivo com o uso de inteligência artificial para simulação de cores.
Inovação como arma
Bater de frente com corporações centenárias e consolidadas no mercado de tintas não intimidou o casal. Para Fabrício, o segredo das marcas menores reside na agilidade e na capacidade de humanizar o atendimento. “A inovação é democrática. Uma corporação de 10 mil funcionários ou uma pessoa sozinha na garagem da sua casa podem ter a mesma ideia. As grandes corporações têm muito poder econômico, mas elas são mais lentas. Eu consigo fazer inovação de uma forma mais rápida”, defende o empresário.
Ogliari avalia que, enquanto as gigantes são obrigadas a padronizar portfólios em busca de lucro massivo, a Oglee pode ouvir as dores regionais e criar produtos sob demanda. “Vender tinta tem essa necessidade de entender um pouco o ambiente onde vai ser aplicado esse produto. Nós vendemos também matérias decorativas. E as matérias decorativas são muito importantes também nessa venda consultiva. Não são só para pintar a parede, são também para decorar, para deixar o ambiente diferenciado. Para isso tem que ter uma equipe que consiga mostrar esses produtos, explicar como é que funciona, as limitações, como se aplica, que tipo de profissional pode aplicar o produto”, explica o industrial.
Foi justamente ouvindo o consumidor sul-rio-grandense que a Oglee moldou seu carro-chefe. Diante do clima úmido característico da região de Pelotas, a fábrica desenvolveu uma linha de tintas emborrachadas e com tecnologia anti-mofo ultra-potencializada para proteger o patrimônio e a saúde dos clientes contra bolhas, infiltrações e descamações. “A umidade é uma coisa que me faz pensar bastante. Tinta não é só para deixar bonito, tinta também é para proteger o patrimônio”, destaca.
Futuro na bancada de criação
A Oglee produz diariamente entre quatro e seis toneladas de tintas em sua planta localizada estrategicamente na entrada de Pelotas, na avenida Presidente João Goulart. “Como a gente vende produtos de alto valor agregado, nosso volume de produção não é absurdamente elevado, porque a gente só faz coisas de alta qualidade, onde o volume de vendas é um pouco menor”, comenta.
As vendas e a administração diárias são feitas por equipes qualificadas que partilham do propósito do casal, enquanto Ogliari prefere o silêncio produtivo do laboratório. “Esse é o meu trabalho: criar produtos novos. Eu nunca vendi um produto que eu criei. Nunca. Quando eu termino o produto, já estou pensando no próximo, então isso não vai terminar nunca. Meu trabalho é criar novas tecnologias, pensar em coisas diferentes, pensar em problemas que hoje têm 100% de solução”, conclui o industrial, que segue focado em nunca deixar seus empreendimentos caírem na estagnação.
