Pelotas, o quarto maior município do Rio Grande do Sul, vive um apagão de mão de obra. Sim, há empregos à espera de profissionais, mas não existem trabalhadores para as vagas. Minha colocação choca-se com a realidade de quem, no dia a dia, peregrina entre entrevistas e idas e vindas para deixar currículos nas empresas.
— Como assim, tem emprego de sobra se eu estou desempregado? — deve estar se questionando agora algum leitor.
Conversei, na última semana, com dois empresários e ambos repetiram o que venho escutando há bastante tempo de outros à frente de CNPJs: temos vagas, não temos gente. E foram além. São oferecidos cursos, habilitações e capacitações, mas as turmas nunca chegam ao final com o mesmo número de inscritos. Começam com 20 ou 30 alunos, e meia dúzia se forma.
O apagão de mão de obra dentro das empresas brasileiras, de diversos setores, acontece principalmente entre os profissionais qualificados. O setor mais impactado é o da indústria–62% delas têm dificuldade para contratá-los. Em entrevista no final do ano passado, o superintendente de Educação Profissional e Superior do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Felipe Morgado, avaliou esse gargalo como consequência das novas tecnologias e modelos de trabalho. “Está relacionado ao novo perfil que as empresas estão buscando: aquele profissional voltado à resolução de problemas complexos”, disse. Segundo ele, o Brasil ainda vive um problema histórico: o percentual de jovens que concluem o Ensino Médio com formação técnica segue baixo. Cerca de 11% deles investem em cursos profissionalizantes, contra 35% a 65% daqueles que vivem nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Voltando a Pelotas, é contraditório escutar nas ruas que “aqui não há oportunidades” e, ao mesmo tempo, ouvir as queixas de quem busca pessoas para ocupar as vagas. Tem-se uma equação a ser resolvida, com ingredientes que precisam ser misturados à fórmula: carga horária, modelo de trabalho, faixa etária, remuneração, plano de crescimento e benefícios são alguns deles. Busca-se o equilíbrio. Quem está no começo da carreira geralmente quer oportunidades para se desenvolver. E quem carrega experiência costuma se tornar mais caro.
Nos últimos mutirões de emprego realizados em Pelotas, os organizadores foram unânimes ao apontar o principal problema observado na entrega dos currículos: a falta de qualificação. O candidato acredita que estar disponível e ter o Ensino Médio completo são suficientes para ser escolhido. Um erro. As empresas se adaptaram ao mercado, tornaram-se mais exigentes e perceberam que não podem perder tempo com apostas. O interesse segue sendo importante, mas deixou de ser o critério número um. É necessário ter capacidade técnica, postura, visão de futuro, resiliência e entendimento do ambiente profissional.
Pelotas precisa fazer essa reflexão. É necessário sentar à mesma mesa com setores estratégicos da nossa economia, gestores, profissionais de ensino (faculdades, escolas e cursos técnicos), entre outros, e debater formas de equacionar o problema. Quais são as principais demandas? Onde devemos investir na qualificação? Poderemos, assim, deixar de exportar cérebros para outras regiões.
Também há outro debate importante, que envolve a mudança comportamental dos jovens e o avanço do trabalho autônomo por meio de plataformas. Trata-se de um grupo que passou a atuar por projetos e a abrir a própria empresa. Iniciativas vantajosas frente ao modelo tradicional–e que precisa mudar -, ainda rígido em seu formato, com jornadas fixas, metas difíceis e salários engessados por contratos.
A análise, ao mesmo tempo, é positiva. Se há oferta de empregos, há um mercado que deseja crescer e investir em Pelotas. Ambiente favorável e oportuno, à espera de bons profissionais.