Sartre em La Rochelle? Uma introdução

Opinião

Luís Rubira

Luís Rubira

Professor de Filosofia

Sartre em La Rochelle? Uma introdução

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Estamos em 1953: Sartre decide se debruçar sobre sua infância. Ele está, então, próximo dos seus cinquenta anos. Pensa que é hora de fazer um balanço final do primeiro período de sua vida, sobretudo para saber por que ele é um homem que escreve, por que dedicou-se à escrita desde cedo, preenchendo páginas e páginas de filosofia e literatura. Sartre, é preciso lembrar, nascera em 1905, atravessara as duas grandes guerras mundiais; fora um dos mais brilhantes alunos da Escola Normal Superior, professor de filosofia no Havre, aquele que publicara em todas as áreas: “romance, novela, filosofia, teatro, (…) biografia, ensaio crítico, reportagem jornalística (…), roteiros de filmes (…) diários íntimos, prefácios, discursos fúnebres” (COHEN-SOLAL, Sartre, L&PM, p. 16-18). Jean-Paul Sartre, aquele que depois de publicar A naúsea e O ser e o nada, deveria tornar-se “testemunha de seu tempo”, conforme lhe sugerira Albert Camus, vindo também a escrever como repórter-jornalista na revista Combat e no jornal Le figaro. Biografias, ele já havia escrito duas: em 1947 publicara Baudelaire, livro no qual, analisando a vida do poeta, fazia um julgamento de valor sobre sua obra; cinco anos mais tarde, em 1952, publicara Saint Genet – ator e mártir, na qual colocava em andamento o método da “psicanálise existencial”, método que ele havia exposto em sua grande obra filosófica publicada dez anos antes, de modo a analisar a vida e a obra do escritor francês Jean Genet.

Estamos em 1953: Sartre faz anotações em seu caderno para empreender, assim, o projeto de escrever sua autobiografia. Desta vez irá dedicar-se não à vida de outros escritores, mas à sua própria. Suas anotações falam das ideias que deveria desenvolver no livro. Ele anota: “impostura…”, “criança solitária (filho único) / que encena a comédia para os adultos. Sua comédia…”, “O demasiado / contingência / tédio / filho único. Sem amigos. Herdeiro de nada…”.

“Herdeiro de nada” – anotara ele… Estava já ali uma das ideias centrais do livro, que inicialmente iria chamar-se João sem-terra (ou como dizemos por aqui: João ninguém). Sartre tem, então, quarenta e oito anos, e levará dez para escrever o livro. Nos sete primeiros anos ele não encontra tempo para dedicar-se inteiramente ao projeto: lembremos que ele iniciara em 1952 uma atividade política intensa, junto ao Partido Comunista Francês, que duraria até 1956; em 1955 fizera uma viagem à China, e nos anos imediatamente seguintes condenara a intervenção soviética na Hungria, bem como o colonialismo na Argélia.

Aliás, suas “posições políticas durante a guerra da Argélia”, como bem escreve Annie-Cohen Solal, “vão colocá-lo em órbita; atacando o poder gaulista, atacando em seus artigos, uma ironia implacável, a política colonial da França, ele irá provocar um verdadeiro psicodrama nacional ao denunciar a tortura e ao convocar à insubmissão, pressionando o governo num duelo sem trégua com o general De Gaulle” (COHEN-SOLAL, Sartre, L&PM, p. 34). É durante esses anos que “ele adquire um estatuto de ‘intocável’ e, convidado pelos chefes de Estado do mundo inteiro, desempenha o papel de um embaixador sem mandato, como representante da França numa função político-ética até então jamais ocupada por nenhum escritor” (Idem). Será, portanto, somente após suas longas viagens, dentre elas aquelas que fez no ano de 1960 a Cuba, a Iugoslávia, e ao nosso país, o Brasil, bem como após publicar o volume de sua segunda maior obra filosófica em 1960, a Crítica da razão dialética (na qual busca conciliar existencialismo e marxismo), que Sartre irá recolher-se, voltar-se sobre si mesmo, para de fato, levar a termo sua “autobiografia”.

Primeira obra que li de Sartre durante os anos em que cursei a faculdade de Filosofia, As palavras (Les mots, Gallimard, 1964) marcaram o início de minha formação. Anos depois, lendo sua principal biógrafa, Annie Cohen-Solal, descobri, dentre tantas outras informações, que ele vivera um período de três anos na cidade francesa de La Rochelle, lugar onde cursara o Lyceu. Pois bem, caras leitoras e leitores, a convite da Université de La Rochelle vim fazer uma conferência nesta cidade margeada pelo atlântico, de imponentes ruínas de torres medievais, de ruas com arcadas em pedras de calcário branco, marcada por uma arquitetura em estilo clássico e renascentista. Nela, sigo os passos do jovem Sartre pela cidade – tema que explorarei em meu próximo artigo.

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