O relógio marca 7h50min no Instituto São Benedito. Diariamente, dezenas de meninas perfilam-se para entoar o hino nacional antes de iniciarem as aulas. A cena, repleta de disciplina e afeto, resume a vitalidade de uma instituição que ultrapassou a marca histórica de 125 anos de fundação. Mais do que uma escola de turno integral, o Instituto é um patrimônio vivo e um dos pilares de assistência social e educacional do município de Pelotas.
A trajetória da entidade, que hoje atende cerca de 100 meninas em situação de vulnerabilidade social, tem hoje a liderança do presidente da instituição, Victor Hugo Siqueira, e da diretora da escola, a professora Lucy Rosa da Silva. Ambos fazem um relato que reconecta o presente a um passado de superação que começou na virada do século 20, pelas mãos de uma mulher negra e visionária: Luciana Lealdina de Araújo.
A promessa e o começo
A história do Instituto São Benedito começou a ser escrita em 1901. Luciana de Araújo, uma mulher negra e filha de escravos, vinda de Porto Alegre, deparou-se com uma dura realidade nas ruas de Pelotas: a presença de inúmeras crianças negras abandonadas e sem o acolhimento oferecido a meninas brancas pelos orfanatos da época.
Com tuberculose, uma enfermidade considerada uma sentença de morte no início do século passado, Luciana fez uma promessa ao seu santo de devoção, São Benedito. Se alcançasse a cura, dedicaria sua vida a acolher as meninas órfãs e desamparadas da cidade.

Luciana de Araújo (de pé ao centro) criou o asilo para órfãs negras (Foto: Reprodução)
“Pela graça divina, ela teve a cura. A partir dali, cumpriu sua promessa. Passou a usar as vestes de São Benedito e começou a recolher as meninas na sua própria casa, na rua General Argolo”, relembra Victor Hugo Siqueira.
Rapidamente, o espaço residencial ficou pequeno. Mobilizada pela dedicação de Luciana, a sociedade pelotense uniu forças sob a liderança de figuras como José Verissimo Alves, que se tornou um dos primeiros presidentes, conta Siqueira.
Em 13 de maio de 1901, foi assinada a ata de fundação do então Asilo de Órfãs São Benedito. Foram dez anos de esforços comunitários e quermesses até que o imponente prédio central da instituição, que até hoje ocupa o meio do quarteirão, fosse inaugurado, em 1912.
Evolução e o legado das Irmãs
Até a década de 1960, a instituição funcionou sob o regime de internato. Ali, gerações de meninas receberam não apenas abrigo e alimentação, mas também formação voltada ao ensino doméstico, culinária, bordado, costura e mais tarde o Ensino Fundamental. O suporte técnico e espiritual ao longo de mais de muitas décadas veio da Congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, que chegaram à entidade ainda em 1901 e permaneceram até 2018.

Dom Jacinto Bergmann celebrou a missa de aniversário, em maio, na capela do Instituto (Foto: Divulgação)
Entre as figuras religiosas marcantes está a Irmã Assunta, que residiu mais de 35 anos no local e tornou-se célebre na cidade pelo conhecimento em ervas medicinais e tratamentos homeopáticos. “Temos até hoje plantas no jardim que foi ela quem plantou. Ninguém mexe, a diretoria preserva muito esse legado”, destaca o presidente.
Nas décadas seguintes, a estrutura física expandiu-se com novos pavimentos e, nos anos 90, com o auxílio do padre Carlos Johannes, que obteve verbas da Alemanha, foi erguido o prédio da esquina, permitindo a ampliação do atendimento pedagógico. Na transição para os anos 1970, o antigo asilo deu lugar à Escola de Ensino Fundamental Incompleto São Benedito, modelo que vigora até os dias atuais.
Amor, rotina e turno integral
Atualmente, o Instituto São Benedito, ainda uma instituição privada, funciona como escola de ensino fundamental, que conta com a parceria com a Secretaria Municipal de Educação (SME), atendendo meninas do 2º ao 5º ano em turno integral. A rotina é intensa, mas acolhedora.
Pela manhã, as alunas frequentam o ensino regular; à tarde, participam de oficinas pedagógicas de dança, coral, letramento em língua portuguesa e apoio pedagógico. Ao longo do dia, as crianças recebem cinco refeições diárias e contam com suporte de psicólogas, orientadoras e coordenadoras.
“Atendemos meninas negras, mas sem excluir as brancas. Cerca de 95% delas são oriundas de famílias em vulnerabilidade social”, explica a diretora Lucy Rosa da Silva. A professora destaca o impacto positivo da instituição na assiduidade das alunas: “Em dias de chuva, elas estão todas aqui. Existe uma rotina bem pontual e equilibrada”, diz.

De caráter privado, o Instituto conta com a ajuda de diferentes pessoas e entidades para manter a educação gratuita e em tempo integral (Foto: Divulgação)
Para os pais, o sentimento é de segurança. “Há aquele alívio de saberem que as filhas estão em um lugar seguro, com ensino, alimentação e oficinas enquanto eles trabalham”, complementa Victor Hugo. O carinho das alunas pelo espaço é tanto que, segundo a diretora, ao chegarem ao 5º ano, muitas pedem para não ir embora: “Elas dizem: ‘diretora, nós queríamos ficar aqui até o 9º ano’.”
Desafios contemporâneos
Apesar de consolidado, o Instituto enfrenta os desafios modernos da educação nacional, como a necessidade de maior engajamento familiar e o manejo de diagnósticos como autismo, TDAH e transtorno do pânico. “Nosso maior desafio ainda é inserir a família ativamente nesse novo quadro, para que entendam o propósito e apoiem as crianças, aumentando o rendimento delas”, avalia a professora Lucy.
Sendo uma instituição de caráter privado, a sobrevivência financeira do São Benedito exige criatividade e uma sólida rede de cooperação. A manutenção provém do aluguel de imóveis deixados por famílias benfeitoras, do repasse mensal da parceria com a SME e, fundamentalmente, da solidariedade da comunidade.
O tradicional grupo de Mordomas da Casa, senhoras da sociedade pelotense lideradas atualmente lideradas por Tânia Gastal, reúne-se semanalmente para organizar eventos beneficentes.
Recentemente, por meio da campanha Buquê do Amor, promovida pela mordoma Maria Eulalie Mello Fernandes, realizaram a entrega de blusões de lã feitos artesanalmente, sob medida, para o inverno das meninas. Como define o presidente Victor Hugo Siqueira, a obra iniciada por Luciana Araújo superou os limites da assistência: “O Instituto vai além. Ele é um patrimônio da cidade, um patrimônio dos pelotenses.”
Ajuda de diferentes lados
A subsistência diária também conta com doações de empresas locais e programas sociais, como o Mesa Brasil, Josapar, Emater, Biscoitos Zezé, Refrigerantes Biri, Doces Crochemore e o panifício Avenida. Clubes de serviço, como o Rotary e o Lions, somam-se frequentemente à causa com ações como almoços beneficentes.
Neste domingo, por exemplo, o Rotary Club de Pelotas Centenário realiza, ao meio-dia, uma feijoada em ação conjunta com o Instituto São Benedito, na Casa da Amizade, avenida Fernando Osório, 1.754. O almoço custa R$80,00.
