Todos querem inovar. Mas sabemos, de fato, o que é necessário para isso?

Opinião

Felipe Gonçalves

Felipe Gonçalves

Psicólogo

Todos querem inovar. Mas sabemos, de fato, o que é necessário para isso?

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Quando essa palavra aparece, a conversa costuma seguir pelos mesmos caminhos. Fala-se em pensar diferente, criar comunidades, sair da caixa, estimular novas ideias. Nos últimos anos, convivendo com diferentes núcleos de inovação, percebi que sob o véu de empolgação que essa pauta sugere, mora algo nem tão belo: a frustração por não conseguir trazer para a materialidade tudo o que foi pensado.

Inovação parte de uma base compartilhada: coordenação entre pessoas que precisam construir algo juntas por tempo suficiente para que uma ideia deixe de ser possibilidade e se torne realidade. Bonito. Ainda assim, difícil de sustentar no mundo dos fatos.

Quando pensamos em comunidades, esse desafio fica ainda mais evidente. Quase toda comunidade nasce a partir de uma base comum. Pessoas que compartilham princípios, interesses ou objetivos e decidem construir algo coletivamente.

O que faz comunidades como o SXSW permanecerem relevantes por décadas? O que permite que empresas como Pixar e Apple continuem criando em ambientes cada vez mais competitivos? Foi tentando responder a perguntas como essas que conheci o trabalho de Linda A. Hill. Ela dedicou sua carreira ao estudo da inovação dentro de organizações e acompanhou de perto equipes responsáveis por projetos em empresas como Pixar, Volkswagen e Pfizer. O que ela encontrou foi uma explicação surpreendentemente simples: a inovação depende da combinação correta de papéis.

Para explicar essa dinâmica, Linda me apresentou um modelo formado por três grupos. Architects, Builders e Catalysts.

Os Architects (Arquitetos) são responsáveis por desenhar o todo. São eles que ajudam a transformar desejos em direção, definem prioridades, estruturam etapas e mantêm viva a visão de futuro que orienta o projeto.

Os Builders (Construtores) assumem a tarefa de transformar essa visão em materialidade. São as pessoas que conectam planejamento e execução, mobilizam recursos, coordenam iniciativas e garantem que o trabalho aconteça no cotidiano. Em muitas comunidades, são eles que mantêm o projeto respirando.

Já os Catalysts (Catalisadores) ocupam uma posição diferente. São pessoas capazes de conectar a inovação produzida pelo grupo com o mundo ao redor dele. Aproximam parceiros, identificam oportunidades, ampliam redes de relacionamento e fazem com que boas ideias ultrapassem as fronteiras da própria comunidade inicial.

O ponto mais interessante desse modelo é que nenhum desses papéis funciona isoladamente. Arquitetos sem construtores acumulam planos. Construtores sem direção geram movimento sem direcionamento. Comunidades sem catalisadores correm o risco de se tornarem conversas fechadas em si mesmas.

Talvez seja por isso que tantas iniciativas percam força ao longo do caminho. Não falta criatividade, mas sim uma estrutura que dê vazão e forma para ela viver de forma independente no mundo. Mais do que o que queremos construir, discutir quem será responsável por tornar aquilo possível é vital para o sucesso de uma ideia.

Em um mundo repleto de distrações, inovar tem menos relação com genialidade do que imaginamos. Quem sabe não começamos perguntando: quem está desenhando? Quem está construindo? E quem está conectando tudo isso ao mundo lá fora?

 

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