Existem dezenas de pessoas que vemos diariamente e quase ignoramos. Somos essa pessoa para elas também. Cumprimentamos, reconhecemos sua existência, às vezes uma conversa a mais sobre algo bobo, como o clima. Mas elas estão ali, e normalmente as pessoas do teu ciclo também a conhecem. Para mim, o Marco era essa pessoa. E nossa! Eu nunca imaginei que escreveria dele no jornal, muito menos na semana em que nos deixou.
Estudávamos na mesma escola, ele alguns anos mais novo. E por um bom tempo deixávamos aquele menino de cabelos encaracolados em casa depois da aula. Eu e meu irmão esperávamos a mãe passar de carro para nos buscar, e, como o Marco fazia com todo mundo, um dia puxou assunto conosco. Eu, na época pré-adolescente, morria de vergonha de ser vista com eles e fingia não estar com os meninos. Imagina! Ser vista com um menino mais novo e com meu irmão, esperando a mamãe ainda!
Nossa mãe chegou, perguntou onde ele morava e ofereceu carona. Marco aceitou. Minha mãe puxou conversa e questionou o que fazia:
– Natação, futsal, música, teatro, dança, pilates,…
Que menino de doze anos faz tudo isso? Que menino de doze anos faz pilates? Que menino dança? Minha mãe achou o máximo, e aquilo virou costume. Mesmo se a carona demorasse, Marco ficava para ir com a gente.
Meu irmão e ele treinavam futsal juntos, e ele era o “guri” que chegava com o violão nas costas para ir jogar. Quando o campeonato começou, Joaquim conta até hoje da vez em que o Marco chegou na linha do gol, virou de costas, e fez questão de fazer o gol de calcanhar, olhando para os adversários.
Joaquim entrou para a faculdade de Jornalismo esse ano e lá estava quem? Depois de alguns anos longe, convidando meu irmão para sentarem juntos em uma palestra. E até hoje – porque ainda não consigo escrever no passado – o Marco recontava a história dessa partida, do passe do Joca para o seu gol mais bonito.
Já não sou mais pré-adolescente, então algumas coisas mudaram. A primeira é que agora não acho que sei de tudo, e um ótimo exemplo é ele. Mais novo, sabia de muitos temas que eu desconhecia – digito isso ainda não acreditando que é no passado. Se ele estivesse feliz, bastava. Não se importava com absolutamente nada da opinião alheia, a não ser daqueles que de fato admirava.
O significado de uma pessoa presa é estar atrelada a outra constantemente. Temos esse poder sobre a mente, de estar atrelado ao pensamento alheio. Eu sempre achei que todos lutavam contra esse mal, mas, aparentemente, não. Um menino de doze anos não. E o homem de vinte também não. Marco era livre. Um espírito tão livre que transbordava sentimento pelo corpo. Fico curiosa para saber o que faria de tão grande, e sei que as pessoas também.