O Brasil chegou em 2026 a 3,8 milhões de influenciadores digitais, um dos maiores números do mundo. Estatisticamente, 1,8% da população do país investe na imagem e acredita que pode usar critérios pessoais – como físicos e estéticos – para construir uma legião de seguidores e ganhar a vida dessa forma. E o que existe de atraente para apostar no mundo tão concorrido, onde tudo se publica e se repete zilhões de vezes nas telas dos celulares? Negócios. O mercado das hashtag costuma movimentar R$ 20 bilhões por ano.
Veio do líder da banda Skank, Samuel Rosa, o comentário certeiro a respeito da era onde todos desejam fazer o mesmo, sem bagagem para oferecer: “Na época em que o Skank apareceu e outras coisas, você era influencer a partir de alguma excelência que tinha na vida. Você luta boxe bem, você joga bola, você canta, você compõe. Tem alguma excelência. Daí você começa a influenciar pessoas. Hoje, essa parte cortou. O que você faz não interessa. Interessa o que você fala. E aí eu digo para algumas pessoas, aquele velho jargão do futebol: ‘Mas esse sujeito jogou onde, gente? Jogou onde para falar com essa certeza toda?’ Então, tem que tomar muito cuidado com isso. As coisas não são tão simples. E o acaso, a sorte… Eu fico com muito medo dessa geração nova que está acatando esse tipo de regime que não atende ao artista, atende ao mercado.”
Samuel disse o óbvio — e algumas vezes o óbvio precisa ser falado. Por que estamos abrindo a porta de casa a quem nada tem a acrescentar ao debate de temas fundamentais à sociedade? Vivemos a era da espetacularização da vida, onde dançar e acelerar vídeos se sobrepõem ao verdadeiro e profundo. O estímulo visual e a repetição, baseados no entretenimento e no compartilhamento, massificam conteúdos vazios.
Segundo a plataforma Influency.me, no ano passado surgiram cem mil novos influenciadores no Brasil, aumento de 8% em relação a 2024. O perfil socioeconômico do país ajuda a explicar o fenômeno. Temos a maior parte da população vivendo nas classes C, D e E, e a ilusão da internet — criar conteúdos nichados pode levar rapidamente à fama e ao dinheiro — surge como sonho fácil, principalmente entre os mais novos. O resultado é conhecido. Poucos se consolidam e muitos desaparecem tão rápido quanto surgem.
A escolha parte de cada um. Você aceita considerar como cláusula pétrea a opinião de um adolescente sobre a redução da jornada 6×1 no Brasil e os impactos da medida na vida dos trabalhadores e das empresas, porque ele tem 100 mil seguidores, é engraçado e aparece em programas de televisão? Para parcela da população, a resposta é sim. Segundo levantamento feito pela plataforma, do perfil dos influenciadores brasileiros, 38% deles têm entre 13 e 24 anos; 47% entre 25 e 34 anos; 9% entre 35 e 44 anos; 3% entre 45 e 54 anos, e 3% mais de 55 anos.
Outra pesquisa — Do feed ao plenário: o debate sobre regulamentação de influenciadores digitais no Congresso Nacional — promovida pela Reglab, Centro de Estratégia & Regulação, foi além. No Brasil, já existem mais influenciadores que médicos, engenheiros ou advogados com registro profissional ativo. O que remete ao debate do reconhecimento da atividade como profissão e suas responsabilidades. Afinal, falamos de pessoas comuns que usam suas contas para analisar saúde, segurança pública, educação, psicologia, políticas públicas e agendas estratégicas à vida coletiva. No Congresso Nacional, aproxima-se de cem o número de projetos de lei para regular a atividade.
Minha geração buscava outros modelos de influência, nos livros, nas canções, nos filmes clássicos, nos debates em grupos, nas campanhas eleitorais, nos jornais impressos, nas rádios. Ouvíamos quem tinha o que falar, não quem gerava likes. Fugíamos dos achismos e de quem vendia a fórmula da felicidade efêmera, hoje negociada por alguns reais no tempo de um storie.