O leitor deve ter um déjà vu cada vez que lê o tema do racismo sendo abordado neste espaço editorial. Mas, infelizmente, os casos se repetem e o cenário é quase sempre o mesmo: no ambiente digital ou em espaços coletivos. Só essa semana, o secretário de Igualdade Racial de Pelotas, Júlio Domingues foi ofendido na internet e o jogo entre Farroupilha e Guarany de Bagé precisou ser interrompido após injúria racial. Fato é que esses são mais dois casos que se somam à longa lista de ataques inaceitáveis, mas que continuam sendo recorrentes.
O resultado é quase sempre o mesmo: notas de repúdio, lamentação e condenações seguidas da tentativa de identificar o autor e puní-lo dentro do que a lei pressupõe Mas infelizmente é sabido que, ali na frente, a tendência é que o caso se repita. Talvez não com o mesmo autor, mas o racismo é uma chaga presente no dia a dia da sociedade. Seja no comentário em tom de brincadeira ou na real crença lamentável de que há uma superioridade ou inferioridade racial, os racistas andam entre nós, existem na sociedade e estão ali, prontos para destilar seu ódio em algum momento que se sentirem seguros, numa roda de amigos, no meio da multidão de um jogo de futebol ou atrás de um perfil anônimo na internet.
Quando até uma figura pública, como o secretário de Igualdade Racial, é perseguida por covardes, não é coincidência. É método. É tentativa de diminuir sua luta. O caso com Júlio Domingues aconteceu durante uma entrevista em uma emissora comunitária da cidade. Mas ele já havia sido alvo em outras ocasiões. Também via perfis anônimos. “Não tem que ter secretaria da igualdade racial, tem que ser da igualdade humana”, dizem algumas pessoas achando que têm razão. Mas a cada caso que se repete, fica mais clara a necessidade de que o debate racial esteja presente com força no cotidiano das pessoas, das instituições e da mídia.
O racista talvez nunca vá mudar sua filosofia, se é que dá para chamar assim. Mas ele precisa ser constrangido a calar-se eternamente para que não reproduza o ódio que sente nem o passe adiante. A sociedade já não aceita pessoas assim, mas elas teimam em existir. A força da lei e o poder do constrangimento público são os principais braços para isso. Critique. Rebata. Denuncie. Ajude esse mal a ser varrido para o esgoto de onde ele veio.
