Em dois meses de funcionamento oficial, o projeto “Do Canteiro ao Prato”, realizado pela Otroporto Indústria Criativa, já distribuiu cerca de duas toneladas de alimentos orgânicos para a comunidade pelotense em situação de vulnerabilidade social. A iniciativa também permite que jovens de escolas públicas da região do Porto de Pelotas possam ter uma formação direcionada à experiência com a horta comunitária.
Em um espaço de cerca de 5,3 mil metros quadrados, localizado na região portuária de Pelotas, que antes era utilizado para depósito de resíduos, foi construída uma horta com produção de cerca de 30 tipos de hortaliças, legumes e frutas diferentes, além de duas estufas, três reservatórios de água com capacidade para 10 mil litros e espaço para aulas e oficinas.
Tudo o que é colhido é distribuído aos estudantes do projeto, moradores de comunidades do entorno, para a cozinha solidária Satolep Invisível, Instituto Hélio de Angola e para o Canto de Conexão Kilombo Urbano.
O período de execução do “Do Canteiro ao Prato” é de três anos e tem o apoio da Sagres e CMPC.
Como funciona o projeto
O mesmo projeto é executado desde 2017 no Centro de Convívios dos Meninos do Mar (CCMar/Furg), em Rio Grande, onde já formou 100 alunos e produziu toneladas de alimentos que abastecem a própria instituição, entidades locais e a comunidade.
A coordenação técnica do projeto em Pelotas é do professor Ernesto Martinez, acompanhado de uma equipe formada por professores, técnicos em agroecologia e auxiliares de produção.

(Foto: Jô Folha)
Integrando a produção de alimentos saudáveis com a formação profissional, o “Do Canteiro ao Prato” busca promover a sustentabilidade e a responsabilidade social. O coordenador técnico, ao avaliar o desenvolvimento das atividades até o momento, destaca a felicidade em ver os alunos engajados e o espaço sendo qualificado, além do impacto positivo na comunidade do entorno “Estamos felizes em ver que estamos cumprindo os objetivos do projeto, que é produzir, doar simultaneamente para as pessoas que realmente necessitam, e a gente tem organizações sociais que nos ajudam nesta distribuição, e o outro objetivo que é formar jovens em contraturno […] nesta área de sustentabilidade, eles saem daqui com uma visão ecologizada do mundo”, diz.
A horta comunitária produz alimentos orgânicos a partir de resíduos de compostagem e a irrigação é feita por gotejamento, que é um sistema que poupa a água utilizada no cultivo, captada e armazenada no próprio espaço.
Formação profissional
Dentro do projeto é ofertado o curso de Agricultura e Meio Ambiente, de forma gratuita para jovens entre 16 e 20 anos dos colégios Dom João Braga e Félix da Cunha. As atividades acontecem no turno inverso da escola e os alunos recebem vale-transporte.
Serão formados 75 jovens durante o período, sendo 15 por semestre letivo. Eles estarão aptos a trabalharem em empresas agrícolas e de jardinagem, em setores de hortifrutis em supermercados, a auxiliarem em projetos de paisagismo e de licenciamento ambiental e também a montar sua própria horta.
Novos horizontes
Os jovens aprendem a teoria e a prática do cultivo de alimentos orgânicos. A formação e o contato com as comunidades em vulnerabilidade refletem na construção cidadã dos alunos. Além disso, são abordadas novas possibilidades dentro do mercado de trabalho, que poucos teriam a introdução, caso não participassem do “Do Canteiro ao Prato”. “É muito interessante, porque hoje em dia a gente não aprende muito sobre isso [agricultura] e isso é uma oportunidade muito boa que o curso nos traz. Até se um dia a gente quiser aprender mais coisas, já vamos ter conhecimento para aprofundar”, afirma Ysis Soares, 18, estudante do último ano do Colégio Félix da Cunha.
Contribuição para a comunidade
As mais de duas toneladas já produzidas e distribuídas pelo projeto contemplam diversos projetos sociais pelotenses, que auxiliam pessoas em vulnerabilidade social, mas, em especial, contribuem na alimentação dos moradores do entorno da horta. Semanalmente, os alunos e a equipe do Otroporto vão até as residências e oferecem o que é colhido no espaço, de forma gratuita.

(Foto: Jô Folha)
A dona de casa, Querci Ramirez, mora há 40 anos ao lado do espaço e recebe os alimentos produzidos pelo “Do Canteiro ao Prato” desde que o projeto iniciou. “É bom e nos ajuda bastante, faz a diferença. A gente também ajuda eles em alguma coisa que eles não sabem, as vezes é pouca ajuda mas é muito bom o contato com o pessoal”, conta.
O aluno do projeto, Eduardo Amaro, 17, também estudante do Félix da Cunha, conta que sua parte favorita tem sido aprender sobre o plantio, mas que o contato com a comunidade também contribui para a sua formação. “É uma sensação única saber que de um jeito ou de outro estamos podendo ajudar a nossa sociedade”, afirma.
Financiamento
Viabilizado com recursos do Fundo para Reconstituição de Bens Lesados (FRBL) do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), o “Do Canteiro ao Prato” utiliza recursos vindos de acordos (TACs) ou condenações, onde indenizações e multas por danos coletivos são revestidos em auxílio para projetos sociais.
As primeiras movimentações para a consolidação do projeto em Pelotas iniciaram em 2024, com a gestão da Otroporto, onde, a partir da assinatura de um Termo de Fomento, a área que hoje abriga a horta começou a ser revitalizada.
