Após o ajuizamento de uma ação civil pública pelo Ministério Público Federal (MPF), que pede que a CMPC refaça os estudos de impacto ambiental, considerando as populações tradicionais possivelmente impactadas com a implementação do Projeto Natureza, o diretor-geral da empresa no Brasil, Antonio Lacerda, concedeu uma entrevista ao Jornal do Comércio onde citou a possibilidade de retirar o investimento do Rio Grande do Sul e encaminhar para o Paraguai onde, além de matéria-prima disponível, há previsibilidade jurídica, segundo ele. A empresa espera uma solução com a Justiça Federal até o final do ano, caso contrário, o maior investimento privado da história do Estado pode ser descontinuado.
A notícia preocupa lideranças regionais, uma vez que o projeto deverá impactar a rotina de negócios e investimentos na Zona Sul. Dentro da logística, está prevista a construção de um terminal portuário de cerca de R$ 1,5 bilhão no porto de Rio Grande e a criação de uma alça de acesso exclusiva ao porto de Pelotas. Lacerda não descartou a possibilidade de descolar o projeto no porto rio-grandino do maior investimento, restando a decisão à empresa.
Até o momento, segundo o diretor-geral da CMPC, já foram investidos cerca de US$ 400 milhões no projeto. No entanto, a construção da planta de celulose em Barra do Ribeiro não teve início. A expectativa é de 30 meses de obras e início da produção em agosto de 2029.
Ao Jornal do Comércio, Lacerda disse que o Projeto Natureza pode esperar uma decisão favorável até, no máximo, o final do ano. “Porque são dois os provedores de tecnologia, a Valmet e a Andritz, e tem três projetos na fila e o nosso é o primeiro da fila, depois tem a Bracell e a Eldorado. Se a gente não tiver uma definição até o final do ano, o nosso projeto passa para segundo ou terceiro da fila. E aí atrasa dois ou três anos e a gente nem sabe se a empresa vai querer investir”, explica o representante da CMPC no Brasil.
Terminal em Rio Grande
Apesar dos entraves na construção da planta de Barra do Ribeiro, o terminal portuário em Rio Grande, destinado ao escoamento da produção de celulose da CMPC, não sofreu alterações em seu projeto. Com investimento previsto de R$ 1,5 bilhão, geração de emprego de cerca de 1,2 mil durante a implementação e 450 postos de trabalho durante a operação, deverá ser responsável por movimentar até quatro milhões de toneladas de celulose por ano.
Estruturalmente, o terminal contará com dois berços para navios, dois berços para barcaças e um armazém com capacidade estática para 194 mil toneladas, em uma área concedida por 25 anos para a CMPC.
Alça de acesso ao Porto de Pelotas
Os investimentos também prometem impactar a movimentação portuária de Pelotas, em específico o trânsito de cargas. A criação de uma alça de acesso exclusiva ao porto está prevista no pacote de projetos da CMPC na região.
O investimento permitirá a duplicação da capacidade operacional do terminal e reduzirá o tráfego pesado na área urbana. Atualmente, o porto de Pelotas é responsável por movimentar cerca de 1 milhão de toneladas, principalmente de madeira, através da CMPC, que já transporta em média 120 carretas bitrem por dia por via fluvial. A nova estrutura deve dobrar a capacidade do terminal e tornar o transporte mais sustentável e econômico. Ela deve ficar localizada próximo à Casa de Bombas Sul e à ponte que leva ao Rio Grande.
Além de movimentar o setor portuário do município, a nova alça de acesso também amenizará um problema urbano, que é o tráfego constante de caminhões em ruas como a Conde de Porto Alegre e Benjamin Constant.
O secretário de Urbanismo, Otávio Peres, afirma que a cidade mantém pleno contato com a empresa e que as propostas iniciais já foram apresentadas. “Estamos trabalhando em convergência à proposta da CMPC às questões urbanas da região portuária. Vemos como positivo um novo sistema que retire a carga de caminhões pesados da malha urbana”, afirma.
É projetado que a cidade aproveite o impulso econômico para qualificar espaços, como a criação de dois parques urbanos, um na Chácara da Brigada e outro no futuro Parque do Acesso Sul, que pode vir a se concretizar a partir da nova alça de acesso.
Entrave
O Projeto Natureza está paralisado por conta de uma discussão jurídica envolvendo seu licenciamento ambiental. O MPF aponta que a documentação avançou sem a ocorrência de Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) das comunidades de pescadores artesanais, indígenas e quilombolas da região no entorno de onde a planta será instalada.
O diretor-geral da CMPC fala que a consulta, que englobaria mais de 100 comunidades, é inviável e que a determinação inviabiliza o projeto.
Sobre os impactos da geração de efluentes da nova planta, Lacerda afirma que a CMPC está segura quanto à questão e que utiliza dados de mais de 10 anos no Guaíba.
Projeto Natureza
Maior projeto de iniciativa privada da história do Rio Grande do Sul, o projeto Natureza, da empresa chilena CMPC, tem um investimento estimado entre R$ 25 bilhões e 27 bilhões. Ele prevê a instalação de uma planta de celulose, com capacidade para produção de 2,5 milhões de toneladas ao ano, em Barra do Ribeiro, além de projetos paralelos em outras cidades para logística de operação. Serão mais de 12 mil empregos gerados pela iniciativa.
O complexo industrial vem sendo criticado por ambientalistas devido a possíveis impactos ambientais, com a previsão de despejo de 242 milhões de litros de efluentes por dia no Guaíba, quantidade superior aos efluentes gerados pela população de Porto Alegre, e do aumento das plantações de eucalipto no Pampa.
