Médico psiquiatra e chefe do Serviço de Psiquiatria do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, Paulo Abreu fala sobre a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforça a necessidade de as empresas identificarem e prevenirem riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Ele também aborda o crescimento dos casos de ansiedade, depressão e burnout, além dos impactos do uso excessivo das redes sociais na saúde mental.
Como você avalia o cenário de discussões sobre saúde mental no trabalho atualmente?
Parece que estamos falando mais sobre isso, e toda a classe médica recebe com muita satisfação essa ampliação do cuidado com a saúde mental. Durante muito tempo, lidávamos principalmente com as consequências dos problemas, muitas vezes já agravados. Agora existe a oportunidade de agir de forma mais preventiva.
Na prática, o que muda com a atualização da norma?
Muitas dessas recomendações já vinham sendo aplicadas há anos. O objetivo é criar um ambiente de trabalho saudável, onde todos sejam tratados da mesma forma, independentemente da função e outras características. É preciso promover a não discriminação, aceitar as diferenças e individualizar o cuidado, identificando os potenciais de cada trabalhador e também suas vulnerabilidades. Além disso, a empresa deve estar atenta a situações como constrangimentos, apelidos e brincadeiras que hoje sabemos que contribuem para o sofrimento psicológico.
O burnout é um dos grandes problemas da atualidade?
Sem dúvida é uma questão importante. O burnout sempre existiu, mas hoje conseguimos identificar melhor. As empresas que investem em um ambiente mais saudável conseguem reduzir fatores que contribuem para esse esgotamento.
Qual é o papel das redes sociais nesse cenário?
A rede social também sempre existiu. Antes, as pessoas conversavam na esquina, no clube, no armazém. O que mudou foi o uso das mídias sociais eletrônicas. Hoje vemos um fator importante que durante muito tempo foi invisível: o uso patológico dessas plataformas. Elas criam uma sensação de que só existe sucesso. Ninguém mostra fracassos, dificuldades ou derrotas. Isso faz muitas pessoas se sentirem pequenas e insuficientes. Também vemos grupos paralelos e conflitos que acontecem longe dos olhos das pessoas envolvidas. Tudo isso gera sofrimento psicológico.
Esse impacto das redes sociais também deveria ser discutido dentro das empresas?
Sim. Esse é um desafio importante. Hoje vemos trabalhadores constantemente conectados ao celular. Mesmo que o empregador esteja atento ao ambiente de trabalho, muitas vezes não consegue acompanhar o que acontece nas redes. Parte da atenção do trabalhador fica dividida. Além disso, podem estar acontecendo situações envolvendo aquela pessoa sem que ela saiba. Tudo isso é muito tóxico.
Ansiedade e depressão estão cada vez mais presentes na sociedade?
Sim. E isso tem relação com diversos fatores, incluindo o uso inadequado das redes sociais. Elas fazem parte da nossa vida, mas é necessário autocontrole e autocuidado para que não se tornem um fator de adoecimento.
Qual é a principal orientação para preservar a saúde mental nos dias atuais?
Precisamos manter o foco nas questões básicas. A mídia pode ser útil para divulgar notícias, mas conversar sobre pessoas continua sendo melhor presencialmente. O Brasil pulou à frente de vários países no número de horas de uso das redes sociais. O Brasil está ficando campeão no uso de redes e isso está adoecendo as pessoas. É preciso limitar esse uso ao que é necessário e equilibrá-lo com conversas presenciais, encontros, convivência e atividades sociais. Essa é uma das melhores formas de prevenir o sofrimento psicológico.