Sandra Travers de Faultrier, a amiga francesa que nasceu em Pelotas

Opinião

Luís Rubira

Luís Rubira

Professor de Filosofia

Sandra Travers de Faultrier, a amiga francesa que nasceu em Pelotas

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“Certifico que, à folha 150 do livro n. 52, de Registro de Nascimentos, foi feito hoje, o assento de Sandra Travers, nascida a 30 de outubro de 1958, às 3 horas e 20 minutos, no prédio – Pelotas – Beneficência Portuguesa –, do sexo feminino, de cor branca, filha legítima de Jean Jacques Travers, natural da França e de D. Maria das Graças Travers, natural do Brasil, casados em Pernambuco”. Tal declaração foi lavrada no Cartório da 2ª Zona de Pelotas, no dia 7 de novembro de 1958.

A mãe de Sandra, Maria, nascera em Recife e possuía “uma verdadeira paixão pela língua francesa, à qual ela foi iniciada ainda criança no Colégio Notre Dame de Sion. Paixão que a conduziu, aos vinte anos, a inscrever-se na Aliança Francesa. Muito rapidamente o diretor, Sr. Dreyfus, e sua esposa, lhe propuseram, em vista de seu excelente nível de fluência na língua, que ocupasse um cargo nesta instituição”. O pai de Sandra, Jean, natural de Paris, “depois de estudar numa prestigiosa escola de finanças, empreendeu longas viagens e estadias em países escandinavos (nos quais passou a dominar o finlandês e o sueco) e pela América do Sul, onde, notavelmente, aprendeu o português e ocupou vários cargos em um banco francês. Ambos se conheceram na cidade de Recife no ano de 1956, por ocasião de uma festa de casamento”. Tal encontro foi uma “paixão fulminante”, “um reconhecimento mútuo. Eles casaram-se no dia 24 de dezembro de 1957”.

O jovem casal desembarcou em Pelotas pouco tempo após o matrimônio. Havia na cidade uma agência do “Banco Francês e Brasileiro S.A.”, na qual Jean “exercia funções de diretor”. Maria lembraria para sempre de sua descoberta do “outono, estação que ela jamais havia conhecido no Recife” e “para sempre guardaria belas lembranças deste ano de 1958. Em particular da praia em Rio Grande”. Cinco meses após o nascimento da filha, o casal “deixa Pelotas no início de abril de 1959” com destino a França, onde estabeleceriam residência definitiva. Sandra, que cresceria sem memórias de sua cidade natal, relata que durante muitos anos “Pelotas era apenas um nome sobre meu documento de identidade”, e que a língua portuguesa, que sua “mãe nunca falava ao se dirigir aos filhos” permaneceu também distante para ela.

Sandra Travers crescerá na capital francesa “perto do Jardim de Luxemburgo” e, ao longo de sua vida, ficará “profundamente ligada a esse espaço parisiense”. Durante a adolescência acabou por deparar-se “com a prosa de André Gide, uma escrita elegante atravessada pelas leituras da Bíblia, das mitologias, de Nietzsche, de Goethe e de Dostoiévski”. Já na juventude cursará primeiramente Direito e depois Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po) e, “por fim, Literatura”. Na época em que cursava Direito vem a conhecer o companheiro de sua vida: Jean de Faultrier, com quem terá três filhas: Isaure, Iris e Victoire. Em sua carreira profissional torna-se “advogada especializada em direito literário e artístico” e para sempre permanecerá muito “próxima da literatura”, tanto em sua profissão quanto em suas pesquisas ou mesmo em seus “compromissos como vice-presidente da Société des gens de lettres”. Sandra Travers de Faultrier fará também doutorado em Letras e Direito, lecionará em universidades e construíra um extenso currículo com centenas de conferências, publicações, entrevistas, dentre outras atividades.

Transcorrido mais de meio século desde seu nascimento em Pelotas ocorre na França um daqueles encontros que são “guiados pelo acaso” ou “um lance do destino”: “Era inverno ou o fim do inverno de 2011. O céu cinzento e o frio envolviam Paris numa lânguida melancolia. Notre Dame, cuja sombra majestosa protege o local da Escola Nacional de Magistratura, onde decorria o Seminário Direito e Imagem (…) permanece na minha memória como uma cúmplice marcante desse encontro”. Foi ali que Sandra conheceu Maria Cecília Lorea Leite, professora da Universidade Federal de Pelotas que fazia um pós-doutorado na Université Paris 8 e também participava do evento. A amizade deu-se de modo imediato: “trocamos endereços, encontrámo-nos, convidei-a para a minha casa”.

Diante não somente da amizade, mas da formação excepcional da professora Sandra Travers de Faultrier, a professora e pesquisadora Maria Cecília Lorea Leite a convidaria para vir até a UFPel já em 2012, de modo a apresentar conferência no “Seminário Internacional Imagens da Justiça”, algo que também fará nos anos de 2014 e 2017. Para Sandra, partir de Paris para Pelotas lhe proporcionou “uma oportunidade de experimentar a graça de uma estranha e evidente concordância entre a vida criativa do pensamento e a fecundidade da vida. A acolhida calorosa de Maria Cecilia e da universidade, a luz intensa e impaciente dos dias, a impressão de sentir a energia amorosa que ali uniu meus pais, a presença da minha filha mais velha, Isaure, desejosa por descobrir minha cidade de nascimento”. Maria Cecília, por sua vez, retornou diversas vezes a Paris para participar do grupo de pesquisa na universidade que a acolhia e, em todas estas ocasiões, sempre tornou a encontrar ou a frequentar a casa de sua amiga francesa nascida em Pelotas.

Pois bem, leitoras e leitores: estou em minha casa no calor tórrido de fevereiro deste ano e recebo uma mensagem da professora Maria Cecília, colega da UFPel a quem muito aprecio: “Boa tarde, Luís, tudo bem? Podes falar? Assunto: visita da Profa. Sandra Travers de Faultrier, que chega a Pelotas com o esposo e uma filha, no dia 16/03 (à noitinha)”. Começava naquele momento para mim uma experiência extraordinária em termos culturais, intelectuais e afetivos. Soube em seguida que desta vez Sandra não vinha a trabalho, mas que “sua estadia em Pelotas fora ditada pelo desejo de dizer Adeus à sua cidade de nascimento”, não por sua idade, mas por possuir uma doença auto inflamatória rara, que torna difícil fazer projetos para o futuro. Seu desejo era, então, o de compartilhar a cidade com seu esposo e sua filha mais jovem.

Juntamente com Maria Cecília, seu esposo Antonio Carlos Mazza Leite, e o artista plástico Alexandre Lettnin preparamos um roteiro turístico e gastronômico primoroso para receber os convidados franceses. Não tenho espaço aqui para narrar os eventos e a intensidade do encontro naqueles três dias, mas creio que um trecho de uma mensagem que recebi de Sandra, após seu retorno para Paris, pode dar uma ideia do que foi vivenciado: “Levei um pouco de tempo para escrever sobre toda a alegria, toda a felicidade que esses dias em Pelotas me trouxeram (…). Dias plenos, densos, calorosamente prenunciadores de uma intensidade e de uma realidade que permanecerão gravadas em mim. Quero agradecer pelo tempo que nos deram, pela preciosa atenção, por aqueles clarões do pensamento que testemunham o prazer e a graça que a atividade e o diálogo intelectuais (denken/danken, como observou Heidegger), mesmo que leves ou distraídos, são capazes de proporcionar (…). Envio também abraços de Jean e Victoire, que estão agradecidos por toda a generosidade de vocês. Até breve. Provavelmente em Paris!”.

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