A defesa de Maicon no pênalti cobrado por Júlio Simas, na última quinta-feira, não decidiu apenas um título. Ela encerrou um trabalho. Há derrotas que acontecem em um lance. Outras começam muito antes dele. A perda da Copa FGF foi apenas mais um capítulo de uma temporada em que o Brasil acumulou investimento, favoritismo e expectativa, mas ainda não conseguiu transformá-los em resultado.
Na Série D, o Brasil tinha um dos maiores investimentos do grupo e ficou fora da zona de classificação. Na Copa FGF, voltou a iniciar como favorito, com um elenco e um investimento superiores aos dos adversários. Ainda assim, não conseguiu transformar esse favoritismo em superioridade dentro de campo e viu o Gramadense levantar a taça no Bento Freitas.
O título não escapou nos pênaltis. Os pênaltis apenas adiaram um desfecho que o futebol já vinha anunciando. Assim como na semifinal contra o Santa Cruz, o Brasil encontrou no fim do jogo um gol que manteve viva a esperança. Mas, durante os 180 minutos da decisão, nunca foi superior ao Gramadense. A disputa por pênaltis nasceu muito mais da força do Bento Freitas e da insistência até o último lance do que de um desempenho capaz de justificar o favoritismo.
Esse roteiro ajuda a explicar por que o Brasil não encontrou a evolução esperada nem mesmo após a troca de comando. Os sintomas apareceram ainda na Série D, mas o time também regrediu coletivamente sob o comando de Laécio Aquino. O treinador não conseguiu consolidar uma ideia de jogo nem dar uma identidade à equipe. Talvez não tenha conseguido transmitir sua proposta. Talvez o grupo não a tenha compreendido ou comprado. Seja qual for a explicação, o campo entregou a mesma resposta: o trabalho não avançou.
A demissão de Laécio encerra esse ciclo, mas não encerra a discussão. O treinador foi mais uma vez a principal consequência dos resultados. O elenco, que também ficou abaixo do esperado, continuará. E a gestão passa a conviver com uma responsabilidade ainda maior. Trocar o comando técnico pode ser parte da solução. Mas, se a avaliação não alcançar também o desempenho do grupo e a condução do futebol, haverá apenas a troca de um personagem, sem a garantia de mudança no roteiro.
Em entrevista à Rádio Pelotense, Fernando Ferreira afirmou: “A gente precisa dar tempo ao trabalho” e “a nossa visão de longo prazo é essa”. As frases fazem sentido dentro de qualquer projeto que pretenda construir algo duradouro. Mas o próprio gestor reconheceu o limite desse discurso: “A não concordância com mudanças periódicas não inviabiliza a necessidade de mudanças quando elas são necessárias”. E concluiu: “Mas o trabalho de fato realizado vai ter que combinar com bons resultados. No final das contas, ninguém resiste à continuidade de maus resultados”.
As declarações foram dadas antes da demissão de Laécio Aquino e de sua comissão técnica. Foi o segundo treinador desligado desde o início da gestão da SAF. A decisão pode até ser defensável pelos resultados. Mas, até aqui, o projeto ainda não conseguiu transformar o discurso da profissionalização em decisões que o distingam das respostas tradicionais do futebol brasileiro nos momentos de pressão.
Perder faz parte do futebol. O que leva um trabalho ao seu limite não é uma derrota. É a incapacidade de apresentar evolução. E foi exatamente essa sensação que o Brasil transmitiu ao longo do primeiro semestre. O desempenho do time derrubou dois treinadores, expôs as limitações do elenco e, agora, também coloca a gestão diante do seu primeiro grande teste de coerência. Se a mudança era necessária, ela também evidencia que, até aqui, o projeto ainda não conseguiu transformar o discurso de longo prazo em uma prática diferente da que historicamente marca o futebol brasileiro.
A Série A2 exigirá muito mais do que investimento, favoritismo ou a força do Bento Freitas. Exigirá um time. Porque, no futebol, o limite de um trabalho não chega apenas para o treinador. Ele alcança todos. De quem tem a caneta a quem faz o gol. Essa foi a principal lição do primeiro semestre do Brasil.