Botas Bonini: um legado para a cultura gaúcha

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Botas Bonini: um legado para a cultura gaúcha

Herança de Antonio Bonini, as botas e demais artigos em couro mantém firme os passos no mercado nacional e internacional

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Botas Bonini: um legado para a cultura gaúcha
Empresa é destaque no mercado nacional e internacional (Foto: Gabriel Leão)

Uma arte que ultrapassa um século e se mantém consolidada através do trabalho manual e com forte raiz com a tradição gaúcha. As Botas Bonini têm origem em Florença, na Itália, e a marca atravessou o oceano Atlântico para criar vínculos com Pedras Altas e Pelotas. A fabricação de botas, botinas, mateira e mocassins sob medida segue sendo artesanal, mas a tecnologia permitiu que a marca chegasse a todos os cantos do Brasil, Uruguai e Argentina. Atualmente a fábrica está na rua Barão de Santa Tecla, 214, um espaço em que o consumidor mergulha no mundo do couro e no que ele pode se transformar.

A história começou muito antes de a marca Bonini ganhar reconhecimento entre tradicionalistas de todo o Brasil. Em 1918, o imigrante italiano João Baptista Bonini deixou Florença, cidade conhecida pela tradição artesanal, desembarcou no porto de Rio Grande e seguiu até Pedras Altas. Foi ali que deu continuidade ao ofício aprendido com o pai, também artesão do couro. “Meu bisavô já fazia luvas e bolsas na Itália. O meu avô se dedicou exclusivamente às botas e ensinou o ofício ao meu pai”, conta Leila Maria dos Santos Bonini, filha de Antônio Angelo Bonini e integrante da quarta geração da família à frente da empresa. Ela lembra com orgulho da amizade do pai com Assis Brasil e das longas conversas que tinham no Castelo em Pedras Altas.

A fabricação comercial das Botas Bonini começou em 1937, data que marca oficialmente a criação da marca, que em 2027 completa nove décadas. A tradição, porém, ultrapassa um século quando se considera a origem do trabalho artesanal iniciado ainda na Itália. A mudança para Pelotas aconteceu por uma decisão familiar. Com quatro filhos em idade escolar, Antonio Bonini e a esposa optaram por buscar uma cidade maior para oferecer oportunidades de estudo. “Viemos para educar nossos filhos. Nós quatro nos formamos, mas eu e meu irmão Sérgio permanecemos na empresa”, relembra Leila.


Leila representa a quarta geração à frente da fábrica (Foto: Gabriel Leão)

Ao longo das décadas, a oficina conquistou uma clientela fiel. No início, boa parte da produção era destinada aos estudantes da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Hoje, graças às vendas pela internet, as botas chegam a consumidores de todas as regiões do país. Entre consumidores, ruralistas, artistas nativistas, peões e prendas que atravessam gerações com o pisar forte da marca.

Sob medida

Mesmo com a modernização da comercialização, o processo de fabricação pouco mudou. Cada peça continua sendo confeccionada manualmente, utilizando couro selecionado e técnicas transmitidas entre gerações. “O segredo é a qualidade. Todo o material é escolhido com muito rigor e praticamente todo o trabalho é feito à mão”, resume Aristimundo Fonseca, responsável pela produção há 31 anos.

As botas podem ser produzidas sob medida. Clientes de diversos lugares enviam o desenho dos pés e as medidas necessárias para que o calçado seja confeccionado de forma personalizada. São cinco medidas utilizadas para garantir conforto e encaixe perfeito, respeitando características como pés mais largos, mais altos ou com formatos específicos. Tem a especial que é com o cano mais longo e mais consistente, e que já foi chamada a “bota do patrão”.

Além das tradicionais botas campeiras, a empresa também produz botinas em várias cores e com diferentes tipos de revestimentos, assim como os mocassins, o xodó do momento. As mateiras chamam a atenção e completam a indumentária campeiras, além de outros artigos em couro. O mercado feminino, que décadas atrás era bastante restrito, também cresceu significativamente. “Hoje as mulheres usam muito mais botas, principalmente no meio tradicionalista”, observa Leila.

Fama internacional

A reputação construída ao longo dos anos fez com que a marca atravessasse fronteiras. Consumidores do Uruguai, da Argentina e de diferentes estados brasileiros procuram o ateliê em busca de um produto reconhecido pela durabilidade. A divulgação acontece principalmente pelo boca a boca, reforçada pela presença digital da empresa. “Há alguns anos vieram aqui querendo comprar nome. E disse para meu pai que a condição que ele não use mais o nome Bonini na fabricação da bota, pois seria a da empresa interessada. O pai disse não. Então é assim que somos vistos no mercado. Isso está muito enraizado”, conta Leila.

Procura-se mão de obra qualificada

Se a tradição permanece viva, o futuro traz um desafio comum a muitos ofícios artesanais: encontrar quem queira aprender. A dificuldade para formar mão de obra especializada preocupa a família, já que toda a fabricação exige conhecimento técnico e prática adquirida ao longo dos anos. “O maior problema hoje é encontrar pessoas para trabalhar. É um serviço totalmente artesanal, que exige dedicação e aprendizado”, explica Fonseca.


Don Antonio nasceu em Pedras Altas e trouxe a marca para Pelotas (Foto: Reprodução)

“O pai era perfeccionista. Tinha um olhar clínico para o trabalho e fazia tudo com muito capricho. É por isso que estamos aqui até hoje”, afirma Leila. Entre formas de madeira, ferramentas antigas e o aroma característico do couro, a pequena fábrica segue na produção de um dos símbolos da tradição gaúcha produzidos em Pelotas.

Um par de botas no más

A trajetória de Antônio Bonini também foi eternizada na música. Em 2002, o tradicionalista recebeu uma homenagem em vida com a canção Don Antonio, composta por Joca Martins em parceria com Xirú Antunes. A música foi apresentada pela primeira vez no palco do Theatro Guarany, em Pelotas, na presença do homenageado. Segundo Joca Martins, a composição nasceu como uma forma de reconhecer a contribuição de Bonini para a cultura gaúcha por meio das tradicionais Botas Bonini, referência entre os apreciadores das pilchas. “Foi um momento muito especial homenagear seu Bonini em vida. Apresentamos essa música com ele no teatro, muito feliz, acompanhando a homenagem”, recorda.

A canção foi gravada por Joca Martins ao lado de Edson Dutra, fundador e líder do grupo Os Serranos, e lançada em 2003 no álbum Clássicos da Terra Gaúcha, trabalho que conquistou Disco de Ouro. Além da parceria musical, Xirú Antunes também assina o recitado que integra a obra, resgatando a história de Antônio Bonini e da fábrica que marcou gerações de tradicionalistas. Para Joca Martins, a homenagem permanece atual por reconhecer o legado de um artesão que criou um estilo de bota respeitado até hoje. “As Botas Bonini continuam sendo uma referência para quem cultiva as tradições gaúchas e utiliza as pilchas. Foi uma forma de registrar, em música, a importância do seu Bonini para a cultura do Rio Grande do Sul”, destaca.

Don Antonio

Um par de botas no más
Tanta história resguardada
Das origens de além mar
Ao rincão de Pedras Altas.

Marca do couro estampado
Cravando fundo as raízes
Legado do avô italiano
A Don Antonio Bonini

Um par de botas no más
Descrevendo uma história
Legenda da trajetória
Que Don Bonini plantou

Argentinos e Uruguaios
Políticos e ruralistas
Gente da pampa e do povo
Rio-grandenses e artistas

Da estirpe dos crioulistas
Estancieiros e peões
Veste luvas nos garrões
Da marca de Don Bonini.

Don Antonio Ângelo Bonini
Nasceu nas Pedras Altas
Herdou o ofício do pai
Nas lidas de um par de botas
Junto à terra das charqueadas.

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