O filme obrigatório para a vida

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

O filme obrigatório para a vida

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Todos deveriam assistir ao filme A Odisseia, dirigido por Christopher Nolan, em cartaz desde a semana passada. Não pela produção cinematográfica, pelos efeitos especiais ou pela presença de grandes nomes de Hollywood. Mas pela mensagem contemporânea que o poema épico de Homero transmite, apesar de ter sido escrito há milhares de anos.

Difícil encontrar meu momento preferido. É um choque de realidade para os dias atuais. Talvez aquele em que a bruxa Circe transforma os homens em porcos (não se trata de spoiler, pois o poema está aí há gerações) durante o banquete dos famintos e se refira a eles como insaciáveis. Ou quando lhe é pedido que os devolva à forma humana e a resposta surja afiada:

— Então, você quer que os porcos continuem disfarçados de homens?

A Odisseia narra a história do guerreiro grego Odisseu e sua batalha pessoal para retornar ao reino de Ítaca, anos após lutar na Guerra da Tróia. A saga envolve poder, lealdade, estratégia, amor, ganância, superação, mudança e os grandes questionamentos que nos acompanham desde sempre.

A obra (o poema) é considerada uma grande metáfora, talvez a que melhor represente a busca interior por respostas que nem sempre conseguimos obter ao longo dessa jornada chamada vida. Com o autoconhecimento, o controle e o amadurecimento, tentamos superar os desafios de cada etapa, em um processo de escolhas. Afinal, viver é optar entre o sonho e a realidade, o amor e o desamor, a companhia e a solidão, o ético e o amoral, a riqueza e o essencial, o excesso e o comedimento, as relações pessoais e as digitais…

Até mesmo a paciência de Argos, o cão de Odisseu, que espera por anos a volta de seu dono, é emocionante. Lealdade difícil de encontrar nos dias de hoje e que só poderia ser representada por quem carrega o título de melhor amigo do homem. O cão, ironicamente, é cuidado por Eumeu, o servo cego que também aguarda o retorno do mestre. Juntos, eles dividem, na solitude e na escuridão dos olhos, uma devoção única.

A Odisseia também fala de política. Debate a legitimidade do poder e sua usurpação, o combate à tirania e à corrupção institucional inserida na sociedade, a desordem e a retomada da justiça. Em um mundo que se esfacela, a luta de poucos para manter a ordem e não sucumbir ao caos está presente de forma constante. Alguma associação com o Brasil e suas nuances, em recortes pontuais?

Odisseu se vê horrorizado com a barbárie imposta a Tróia por meio do ato de traição à confiança na lei dos deuses, e isso o atormenta. De soldado a serviço do rei, ele percebe todas as violações contra um povo que não entende por que está sendo morto e escravizado, exclusivamente pela força e pela necessidade de ocupar território. Se pararmos para pensar, A Odisseia repete-se ao longo dos séculos, principalmente nos dois últimos, 20 e 21. E a interrogação histórica de Penélope continua à espera de uma resposta:

— A civilização irá resistir?

A humanidade se esforça para que não. E se apega ao final feliz do filme, com o olhar voltado para o oeste, sempre à espera do novo amanhã.

Vá ao cinema e assista a A Odisseia. Antes, deixe seus preconceitos e valores tortos — que todos temos — em casa. Eles estarão lá quando retornar.

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