Quem viveu a virada do milênio certamente se lembra da rotina de procurar moedas no bolso, comprar cartões telefônicos com estampas colecionáveis ou esperar na fila para dar um telefonema rápido. Foi resgatando essa atmosfera nostálgica e cheia de peculiaridades que o escritor, produtor cultural e guia de turismo Rodrigo Seefeldt se inspirou para criar sua nova obra: Contos de Orelhão – Permaneça na linha. O livro será lançado nesta terça-feira (9), no restaurante Nona Bray, em São Lourenço do Sul, das 17h às 19h30min, prometendo uma verdadeira viagem no tempo para os moradores da região.
A obra sai pela Editora Pragmata com a assessoria da Dodecaedro Refúgio Literário, um empreendimento cultural que Seefeldt mantém em parceria com a escritora e professora Cléia Dröse. “A gente tem essa parceria com a Pragmata pra esse novo livro que eu digo que é o meu novo filho, tá mais bonito do que eu”, brinca o autor.
Histórias de dar linha
O livro é composto por 19 contos e destaca-se pelo projeto gráfico visual. Cada narrativa ganhou um traço exclusivo do ilustrador Ricardo Freitas, o Donga, natural de Arroio Grande. A imagem de capa resume bem o espírito interiorano: um menino no telefone público cercado por galinhas e um cachorro.

(Ilustração: Divulgação)
A inspiração para o projeto nasceu das próprias memórias de infância de Rodrigo no Boqueirão Velho, interior do município. No ano 2000, um orelhão foi instalado bem em frente à sua casa após um abaixo-assinado liderado por seu avô, que cansara de emprestar a linha residencial para toda a comunidade. O telefone público virou o ponto de encontro local.
“Fui criando várias histórias que poderiam ser contadas no orelhão: fofocas, desavenças. Então todos os textos que estão neste livro têm uma pitada de humor”, revela o escritor.
Embora as histórias tragam ficção e humor, muitas foram temperadas com relatos reais de conversas ouvidas de relance e causos contados por seu avô. Além disso, o Seefeldt historiador não ficou de fora. O livro conta com a seção “Você Sabia?”, trazendo dados históricos sobre a telefonia. Entre as curiosidades, destaca-se o registro de que, em 1955, São Lourenço do Sul contava com apenas 112 telefones residenciais. Já no ano 2000, auge da narrativa, a cidade somava 116 orelhões e seis telefones comunitários rurais.
Imersão nostálgica
O evento de lançamento no restaurante Nona Bray foi planejado para ser uma experiência interativa. O público poderá ver de perto uma exposição com listas telefônicas antigas, fichas e aparelhos da época. Estarão expostos também um telefone comunitário rural e um orelhão amarelo original, que Rodrigo ganhou de aniversário de seu irmão, um entusiasta do garimpo de antiguidades.
A comoção em torno do tema foi tão grande durante a produção do livro que o escritor acabou ganhando mais de 100 cartões telefônicos antigos de amigos e leitores, transformando o acervo em uma coleção que exibe propagandas e campanhas culturais dos anos 2000. Para quem quiser levar uma recordação física, serão comercializados no local souvenirs em biscuit no formato de miniorelhões (nas cores verde e amarela), confeccionados por uma artesã lourenciana.
Convite para desacelerar
Com um olhar atento ao presente, o pós-fácio do livro é assinado pela psicóloga Renata Sampaio, que propõe uma reflexão necessária sobre a saúde mental na era digital. O texto convida os leitores a fazerem uma pausa na “enxurrada de telas” e dedicarem pequenos momentos do dia à leitura física.
Ativo na cena cultural de São Lourenço do Sul, sendo também o criador do projeto do Fusca Amadinho e da Fuscoteca, Rodrigo Seefeldt reforça a missão de democratizar o acesso à literatura no município, que este ano celebra os 30 anos do Centro de Escritores Lourencianos. “Temos a responsabilidade de estar sempre trazendo algo novo para despertar nas pessoas novamente aquele interesse em ler e incentivar seus filhos a acreditar”, fala o autor.