Uma aposta vira outra. Depois mais uma. Quando o impulso supera a capacidade de parar, o jogo deixa de ser “a diversão com responsabilidade” e passa a representar um transtorno. Com a rápida capilarização das plataformas de apostas no Brasil, crescem os alertas para o crescimento da ludopatia no país. Dados da Pesquisa TIC Domicílios mostram que cerca de 30 milhões de brasileiros já fizeram algum tipo de aposta online.
Para o psicólogo Gustavo Costa, o crescimento do mercado das bets acompanha também um aumento na procura por atendimento psicológico. Segundo ele, a demanda começou a crescer durante a pandemia e se intensificou nos últimos dois anos. O movimento aconteceu junto à expansão das plataformas e à publicidade cada vez mais presente.
A ludopatia, transtorno caracterizado pela compulsão por jogos de azar, ocorre quando a pessoa perde o controle sobre o hábito de apostar. “As plataformas são desenvolvidas para criar uma falsa sensação de segurança e de possibilidade de ganho, estimulando o comportamento repetitivo”, explica o psicólogo.
Problema de saúde pública
O especialista afirma que o problema passa a ser considerado um transtorno quando provoca prejuízos concretos, como endividamento, queda no rendimento profissional, conflitos familiares e isolamento social. Em muitos casos, o jogador também esconde o comportamento da família e dos amigos.
Endividamento
Sobre o impacto econômico, uma estimativa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência associada às apostas online retirou R$ 143 bilhões do comércio brasileiro. Além disso, o crescimento dos gastos com plataformas de apostas ultrapassou R$ 30 bilhões por mês e pode ter levado cerca de 270 mil famílias ao endividamento severo.
Influência e facilidade
Outro fator de preocupação é a exposição constante à publicidade. Para Costa, o uso de influenciadores, atletas e artistas contribui para normalizar as apostas e funciona como um gatilho para novos usuários e para pessoas que já enfrentam dificuldades com o jogo.
A facilidade de acesso também agrava o cenário. Diferentemente dos antigos bingos e cassinos, hoje basta um celular para apostar a qualquer momento. “O jogo está na palma da mão. Isso reduz barreiras e favorece decisões impulsivas”, afirma.
Tratamento e caminho a percorrer
Segundo o psicólogo, o tratamento depende do reconhecimento do problema pelo próprio paciente, mas a participação da família é fundamental. Ele defende ainda que o avanço das bets seja tratado como uma questão de saúde pública, com fortalecimento da rede de atendimento psicossocial e maior debate sobre os efeitos da publicidade.
