O governo tentou chegar primeiro. Antes que o veto ao projeto da tarifa zero virasse assunto na tribuna, a Prefeitura divulgou um release explicando a própria versão dos fatos. A mensagem era que a ideia não foi rejeitada, mas o problema estaria no caminho escolhido para apresentá-la.
A história começou com o vereador Jurandir Silva (PSOL), líder do governo na Câmara. Foi dele a iniciativa de criar o Programa Municipal de Estudos para Viabilização da Tarifa Zero. A proposta não implantava a gratuidade no transporte coletivo, o objetivo era autorizar estudos sobre custos, fontes de financiamento, impactos econômicos e experiências de outras cidades. O projeto avançou na Câmara e parecia reunir um ambiente relativamente favorável. Mas, ao chegar à mesa do prefeito Fernando Marroni (PT), recebeu veto integral.
Na justificativa, o Executivo sustentou que a proposta apresentava vício de iniciativa por criar atribuições para órgãos da Prefeitura. Também apontou ausência de estimativa de impacto financeiro. Em resumo, o governo argumentou que o conteúdo poderia até ser discutido, mas não daquela forma.
O que chamou atenção foi o movimento seguinte. Poucos dias depois, a própria Prefeitura protocolou um novo projeto criando exatamente o mesmo programa de estudos. O texto tem diferenças técnicas, mas preserva o objetivo central de analisar a viabilidade da tarifa zero em Pelotas, produzir relatórios, buscar parcerias com universidades e instituições de pesquisa e reunir dados para subsidiar futuras decisões sobre o transporte coletivo.
No release divulgado pelo governo, a explicação foi de que a proposta de Jurandir tinha mérito e que a nova redação serviria para evitar questionamentos jurídicos futuros. A Prefeitura procurou enquadrar o episódio como uma correção formal, não como uma mudança de posição sobre o tema. Mas a política raramente fica apenas na explicação oficial. Nos corredores da Câmara, vereadores da oposição enxergaram uma oportunidade. A articulação que começa a ganhar forma passa por dois movimentos simultâneos: tentar derrubar o veto do prefeito ao projeto de Jurandir e criar dificuldades para a tramitação da proposta encaminhada pelo Executivo.
O objetivo não é necessariamente barrar o debate sobre tarifa zero. A aposta é transformar a discussão em um teste de alinhamento da base governista. O líder do governo apresentou o projeto, o plenário aprovou, o prefeito vetou e, dias depois, o próprio governo apresentou uma proposta semelhante. Para a oposição, isso abre espaço para questionamentos sobre coordenação política.
Por isso, cada lado tentará contar a história da forma mais conveniente. O que se sabe, por enquanto, é que uma proposta criada para discutir o futuro do transporte coletivo acabou abrindo uma discussão sobre a relação entre o Executivo e seu líder na Câmara. E talvez seja justamente esse o principal debate das próximas semanas, não sobre quem paga a tarifa zero, mas sobre quem controla a narrativa em torno dela.
Tauã Ney se manifesta após condenação do pai
O vereador Tauã Ney (PSDB) se manifestou nas redes sociais após a repercussão da condenação do pai, o ex-vereador Roger Ney, sentenciado em primeira instância a 16 anos de prisão por estupro de vulnerável continuado. Na publicação, Tauã afirmou que ele e a família vivem “um dos momentos mais difíceis” de suas vidas. O vereador classificou os fatos que vieram a público como “extremamente graves” e disse sentir profunda tristeza pela natureza do caso.
Tauã também buscou separar sua trajetória pessoal e política da situação envolvendo o pai. “Quero deixar claro que não tenho qualquer envolvimento com os fatos que foram julgados pela Justiça. Cada pessoa deve responder pelos seus próprios atos”, escreveu. No texto, o vereador afirmou respeitar a Justiça e suas decisões, mas pediu sensibilidade para que as responsabilidades não sejam confundidas. Ele também citou o peso de ver seu nome, sua trajetória e a memória da mãe sendo utilizados para atingi-lo.
Roger Ney está preso preventivamente desde outubro do ano passado. A decisão condenatória é de primeira instância.
Títulos na Câmara
Seguem entrando no sistema da Câmara de Pelotas os projetos para concessão de títulos de Cidadão Pelotense, homenagem tradicionalmente entregue durante as comemorações do aniversário do município, em julho. Depois de Marciano Perondi, indicado por Júnior Fox (PL), e Paulo Cesar Acosta Dias, indicado por Daniel Fonseca (PSD), chegaram mais três pedidos: Rafael Amaral (PP) propôs o título ao médico nefrologista Vinícius Ataides Alano; Jurandir Silva (PSOL), à jornalista, escritora e ex-deputada Manuela d’Ávila; e Miriam Marroni (PT), o título de Cidadão Emérito ao professor Alexandre Lemos Vieira.
Nas justificativas, Alano é citado pela atuação na saúde, como professor universitário e diretor assistencial do Hospital Universitário São Francisco de Paula; Manuela, pela trajetória política, acadêmica e pela relação com Pelotas, especialmente por vínculos familiares, universitários e atuação junto a movimentos sociais; e Alexandre, pelo trabalho na educação pública, com destaque para a direção da Escola Municipal Francisco Caruccio desde 2015. Os nomes ainda precisam passar pela aprovação dos vereadores e, depois, pela sanção do prefeito para que as homenagens sejam oficializadas em lei.
Custo alto
Jaques Wagner quer permanecer na liderança do governo no Senado ao menos até o recesso. O movimento é ruim para ele e pior para o Planalto. Wagner foi alvo da Polícia Federal na investigação sobre o Banco Master. Nega irregularidades, claro, e terá direito de se defender. Mas o cargo que ocupa não é pessoal. Afinal, o líder do governo fala pelo governo. Ao insistir em ficar, Wagner tenta evitar uma saída com aparência de culpa. O problema é que, enquanto permanece, mantém o caso dentro do Palácio. Para a oposição, é simples: basta repetir que o líder de Lula está na mira da PF. Politicamente, não há muito ganho, só desgaste.