A disputa de Zucco

Opinião

Pedro Petrucci

Pedro Petrucci

Jornalista

A disputa de Zucco

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A passagem de Luciano Zucco (PL) pelo Grupo A Hora deixou a impressão seguinte: sempre que decidiu endurecer o discurso, o alvo principal não foi Juliana Brizola (PDT), foi o governo Eduardo Leite (PSD) e, principalmente, Gabriel Souza (MDB).

Isso apareceu em diferentes momentos da entrevista e da sabatina. Zucco criticou o governo que, segundo ele, está há 12 anos no comando do Estado sem entregar os resultados esperados. Ironizou o excesso de números, planilhas e indicadores apresentados por um adversário — uma característica frequentemente associada ao vice-governador Gabriel Souza. Também voltou ao tema dos impostos e da necessidade de uma gestão mais eficiente.

É uma estratégia que faz sentido. Juliana Brizola hoje representa um eleitorado que dificilmente migrará para Zucco ainda no primeiro turno. Gabriel, não. É justamente o candidato que disputa o eleitor de centro-direita, o eleitor liberal, o eleitor que aprova parte da gestão de Eduardo Leite, mas ainda pode ser convencido por outro projeto. Se Zucco quer voltar a crescer nas pesquisas, faz sentido tentar reduzir o espaço de Gabriel antes de olhar para Juliana.

Outro aspecto chamou atenção. Embora seja o principal nome do bolsonarismo gaúcho, Zucco falou muito menos de Jair Bolsonaro do que de Jorginho Mello. O governador de Santa Catarina apareceu diversas vezes como exemplo de gestão, desenvolvimento e resultados. Também não parece uma escolha por acaso. Jorginho governa um estado vizinho, é do mesmo partido e mantém índices elevados de aprovação. É uma referência mais útil para uma disputa estadual do que um debate nacional.

Em vez de nacionalizar a campanha, Zucco procurou estadualizar o discurso. Falou mais de infraestrutura, dívida, ensino técnico, ambiente de negócios e desenvolvimento econômico do que de pautas ideológicas.

O terceiro ponto diz respeito à própria região Sul. Zucco falou bastante da metade Sul. Citou a saída dos jovens, a necessidade de fortalecer o Porto de Rio Grande, a indústria do pêssego, o agro, a qualificação profissional e a infraestrutura. Reconheceu que a região perdeu prioridade ao longo dos anos. Mas, ao mesmo tempo, as respostas ainda ficaram no campo do diagnóstico. Boa parte do que foi dito serviria para outras regiões do Estado. Faltou dizer quais seriam as prioridades específicas para Pelotas e para a metade Sul caso seja eleito. O próprio Zucco reconheceu isso ao afirmar que ainda pretende ouvir empresários, entidades e lideranças locais antes de fechar o plano de governo.

No fim, a passagem por Pelotas mostrou um candidato tentando ampliar o discurso. Sem abandonar sua identidade política, Zucco procurou se apresentar mais como gestor do que como protagonista da polarização nacional. Também deixou claro que, nesta fase da campanha, a disputa dele parece passar menos pela esquerda e mais pelo centro.

Bastidores da sabatina

Como costuma acontecer com todos os pré-candidatos, Luciano Zucco (PL) chegou preparado para a sabatina com informações que sua assessoria considerava relevantes para a metade Sul. O material tinha aproximadamente 50 páginas, com diversas temáticas separadas. Alguns trechos estavam sublinhados. Outros, marcados em amarelo. Os mais sensíveis, em vermelho. “Um doutorado da região”, brincou o pré-candidato nos bastidores.

De canto de olho, a coluna conseguiu perceber uma das anotações em vermelho. A recomendação era para não abordar o Porto Meridional, projeto previsto para Arroio do Sal, no Litoral Norte do Estado, porque “a região vê com maus olhos um novo porto”.

De fato, o tema não foi abordado por Zucco quando a pauta foi infraestrutura. O pré-candidato falou sobre BR-116, BR-290, ferrovias, hidrovias, dragagem, Porto de Rio Grande e ponte entre Rio Grande e São José do Norte. Mas não entrou no Porto Meridional. O silêncio é compreensível. Zucco é apoiador do projeto e, em outras entrevistas e audiências públicas, já se manifestou favoravelmente ao novo terminal. O problema é que, na metade Sul, o tema passa longe de ser neutro.

Há quem entenda que um porto no Litoral Norte criaria concorrência direta com Rio Grande, justamente o principal ativo logístico da região. Já os defensores do projeto argumentam que o novo terminal ampliaria a capacidade portuária do Estado e ajudaria a reter cargas que hoje saem por portos de outros estados.

Na sabatina em Pelotas, diante de entidades e lideranças da região, Zucco preferiu não abrir essa frente. Neste vespeiro, não mexeu.

Cemitério em ajuste

A entrevista do secretário de Serviços Urbanos, Mateus Cosen, à Rádio Pelotense atualizou um problema antigo de Pelotas: a situação do Cemitério da Boa Vista, na Sanga Funda. O tema voltou ao debate após o Ministério Público abrir procedimento para apurar possível irregularidade na exploração do cemitério. Mas a questão vem de longe. O Boa Vista já teve interdição, restrições de uso, cobrança por regularização ambiental e discussão sobre novo modelo de administração.

Em 2017, o cemitério foi desinterditado parcialmente após apontamentos ligados ao solo e ao lençol freático. O uso ficou limitado, com prioridade para sepultamentos assistenciais e famílias que já tinham relação contratual com o município. Depois, em 2023, a gestão anterior apresentou um projeto de reestruturação, com obras em etapas e possibilidade de Parceria Público-Privada.

Agora, segundo Cosen, o Ministério Público questiona a eficiência do serviço. A Prefeitura, diz ele, acertou com o MP a elaboração de um novo modelo, que não seja pesado para o Município nem para a população. “Estamos trabalhando na digitalização de todo o registro histórico. Herdamos tudo em papel. São muitos documentos perdidos”, afirmou.

O secretário também disse que foi criada uma dotação orçamentária específica para o cemitério e que, no curto prazo, a Prefeitura terá de definir qual parceria poderá ser feita para a administração do Boa Vista. A intenção, segundo ele, é manter o serviço de assistência social, e o projeto trabalha com horizonte de 15 a 20 anos.

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