O imunizante contra a dengue está com a campanha vacinal paralisada, de forma preventiva, a pedido do Ministério da Saúde (MS). A ação se deu após o registro de reações adversas em pessoas que tinham recebido a dose da vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan e aplicada em profissionais da saúde. Entre as reações, estão duas mortes cujas causas e a possibilidade de relação com a vacina estão sendo investigadas.
Apesar do cenário, a infectologista responsável pela coordenação dos estudos que auxiliaram no desenvolvimento do imunizante na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Danise Senna, destaca que a vacina é segura e importante para o combate da endemia no Brasil. “Acompanho o episódio com tranquilidade e com cautela. A gente tem um sistema de farmacovigilância que realmente funciona, e isso traz segurança para o nosso programa nacional de imunização, tanto em relação à dengue quanto a demais vacinas”, reforça.
A infectologista também reafirma que foi justamente o sistema de monitoramento, que cuida dos dados e faz o cruzamento dos mesmos, que detectou a situação adversa e possibilitou que o MS tomasse a atitude necessária de paralisar a imunização e investigar o que estava acontecendo.
Não há nenhuma informação, até o momento, de que algum caso de reação adversa à vacina contra a dengue tenha ocorrido em Pelotas.
A UFPel, através do Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital Escola, integrou o estudo que embasou a aprovação da vacina, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no final de novembro de 2025.
A vacina é a primeira no mundo capaz de oferecer proteção com apenas uma dose, um diferencial que favorece maior adesão da população, simplifica campanhas, amplia a cobertura em emergência sanitária e contribui para reduzir atendimentos ambulatoriais, hospitalizações e mortes relacionadas à dengue.
Além do imunizante do Butantan, que foi aplicado apenas em profissionais da saúde, o Brasil segue vacinando crianças contra a dengue, mas com a vacina Qdenga. Nela, são necessárias duas doses, com um intervalo de três meses entre elas.
Reações
Danise explica que as reações observadas pelo cruzamento de dados do Ministério da Saúde não se manifestaram na fase de testes, e que isso é comum. “O estudo durou dez anos e não se viram essas coisas aconteceram, é preciso ser investigado”, diz.
A interrupção na vacinação com o imunizante do Butantan ocorreu após a identificação de três mil casos de reação, que eram semelhantes a um quadro de dengue. Destes, 42 manifestaram a condição com sinais de alarme (vômito persistente, dor abdominal, algum tipo de sangramento, mas que não levou à internação), fatores que não haviam aparecido no estudo. Ainda, dentro destes, foram verificados três casos graves envolvendo profissionais da saúde: uma mulher de 38 anos que foi internada em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com sintomas de dengue hemorrágica e que recebeu alta, e dois casos, de 48 e 58 anos, que evoluíram para óbito, um com sinais de sistema nervoso central e outro com sangramento de choque. “A dengue faz uma epidemia a cada três anos. Não estamos em um ano de alta endemicidade. Os casos representam 0,008% das aplicações em todo o país”, diz Danise.
A partir disso, o próximo passo é a investigação dos fatores de risco que possam ter levado a esse agravamento e se há alguma relação com a vacina. O processo é realizado pelo MS, Anvisa e pelo Instituto Butantan.