Na última vez em que fiz estágio de estudos em Paris, entre setembro de 2014 e março de 2015, eu tinha três tarefas para realizar, além do pós-doutorado: concluir a organização do terceiro volume do Almanaque do Bicentenário de Pelotas; finalizar a revisão de meu livro Vitor Ramil: nascer leva tempo; e redigir dez verbetes para o Dicionário Nietzsche, entre os quais “eterno retorno do mesmo” e “amor fati” (amor ao destino). Mais de dez anos depois retorno para participar do Congresso: “Novos valores? Nietzsche e o problema da cultura”, a ser realizado na École Normale Supérieure, a prestigiosa instituição de nível superior onde já estudaram Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Simone de Beauvoir, Simone Weil, dentre tantos outros.
Abro aqui um parêntese para contar algo sobre minha trajetória em Filosofia: deparei-me com o tema da “transvaloração de todos os valores” por volta de 1995, quando concluía a graduação em Filosofia na UFPel. Depois disso rumei para um mestrado em filosofia na PUCRS para pesquisar o tema, e alguns anos depois para aprofundá-lo ainda mais num doutorado na USP. Passei também um ano e meio na França, entre 2007 e 2008, frequentando diariamente a Biblioteca Nacional para escrever minha tese de doutorado, a qual defendi em março de 2009 (mesmo ano em que prestei concurso para professor na UFPel), publicada posteriormente em livro sob o título: Nietzsche: do eterno retorno do mesmo à transvaloração de todos os valores (São Paulo: Discurso Editorial / Editora Barcarolla, 2010).
Pois bem: naqueles seis meses de estudos entre 2014 e 2015 eu não somente consegui finalizar as tarefas que levara na bagagem, mas também voltei a trabalhar na Biblioteca Nacional da França fazendo anotações para meu pós-doutorado “Nietzsche e a tarefa da transvaloração de todos os valores: agosto-dezembro de 1888”. O resultado das investigações resultou num ensaio que apresentei num Congresso na cidade de Nice, no sul da França, em junho de 2018, o qual alguns meses depois foi publicado na revista Discurso, da USP, sob o título: “A tarefa da transvaloração: esclarecimentos a partir da correspondência de Nietzsche em 1888”. Transcorridos oito anos, retomei minhas anotações da época do pós-doutorado e escrevi um novo ensaio que começa assim:
“Na semana compreendida entre o último domingo do mês de agosto e o primeiro domingo de setembro de 1888, em Sils-Maria (lugar onde tivera o “pensamento do eterno retorno, a mais elevada forma de afirmação que se pode em absoluto alcançar”), Nietzsche vivencia um estado interior de “transbordante frescor e alegria”, o qual lhe permite pôr em obra a “tremenda tarefa da transvaloração (Aufgabe der Umwerthung)”. Este estado, como sabemos, é precedido por meses de trabalho intenso de reflexões e anotações para a sua obra “A vontade de potência” (iniciado em novembro de 1887) e, sobretudo, por crises de insônia que passa a ter em Sils-Maria (para onde retornara em junho de 1888), tal como relata numa carta escrita na quarta-feira dia 22 de Agosto de 1888 para sua amiga Meta Von Salis. Nela, ele relata que durante todo “este inverno e a primavera” encontra-se numa “extrema atividade espiritual” e que “neste último verão” sofre de uma “insônia absurda. Hoje também, como ontem, como anteontem, desde as duas, em meditação… até às quatro”. Dias depois desta carta, o filósofo elabora aquele que viria a ser conhecido como o último “Esboço do plano para: A vontade de potência. Tentativa de uma transvaloração de todos os valores”, escrito em “Sils Maria, último domingo do mês de agosto de 1888”.
A partir daqui o referido ensaio tem dezenas de páginas, algumas que ainda preciso concluir quando retornar do Congresso. Mas a pergunta que me coloquei nas últimas semanas foi: por que levei tantos anos para voltar a esta pesquisa que apresentei em junho de 2018 em Nice, a cidade localizada à beira do mediterrâneo, onde Nietzsche escreveu a terceira parte de sua obra Assim falava Zaratustra? Em parte pela dificuldade que é perseguir a complexidade dos últimos escritos do filósofo antes de seu colapso psíquico, de modo a mostrar que ele é um filósofo da afirmação; em parte porque o tema da afirmação envolve a questão nietzschiana do “amor fati”.
Pois bem, pessoas leitoras, enquanto eu estava imerso na pesquisa Nietzsche, com dezenas de livros abertos, fui assistir a uma conferência do Dr. Paulo Rosa na Sociedade Científica Sigmund Freud, em Pelotas. Naquela noite ele citou o seguinte trecho de uma Carta de Freud a Oskar Pfister, do dia 5 de Junho de 1910: “A própria análise só funciona se o paciente descer das abstrações substitutivas até os ínfimos detalhes”. A frase produziu como que um “clique” em meu “si mesmo”: aceitar que o método com o qual trabalho é um método que desce aos “ínfimos detalhes” do pensamento do filósofo. Mas sobretudo aceitar que aquilo que fazemos, e o modo como o fazemos, é pelo amor ao destino.