Sobre uma biografia do filósofo Cornelius Castoriadis publicada em Paris

Opinião

Luís Rubira

Luís Rubira

Professor de Filosofia

Sobre uma biografia do filósofo Cornelius Castoriadis publicada em Paris

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Em frente à Sorbonne, ou mais precisamente em sua diagonal, a vitrine da Librarie Compagnie exibia alguns livros de filosofia lançados no início daquele primeiro semestre letivo de 2014, dentre os quais três ligados à filosofia política. Logo no centro da vitrine, o primeiro: Castoriadis: une vie [Castoriadis: uma vida] de François Dosse; mais abaixo, o segundo: Defense du Marxisme [Defesa do Marxismo], de José Carlos Mariátegui; e, ao seu lado, o terceiro: Que faire? Dialogue sur le comunisme, le capitalisme et l’avenir de la democracie [O que fazer? Diálogos sobre o comunismo, o capitalismo e o futuro da democracia], de Alain Badiou e Marcel Gauchet.

A contracapa do livro de Badieu e Gauchet (Paris: Philo éditions, 2014) sintetizava: “Acredita-se que o comunismo definitivamente entrou em colapso com a queda do muro de Berlim e que a democracia liberal tenha ganhado a partida. Mas eis que, com a crise sem precedentes que nós atravessamos, o campo de possibilidades se redistribui. A democracia é irremediavelmente prisioneira do capitalismo ou pode ela reinventar-se para responder ao desafio da globalização? Em um diálogo inédito e exclusivo, Alain Badiou, personalidade representativa da esquerda radical e principal advogado do ideário comunista, e Marcel Gauchet, representante maior do anticomunismo e defensor da democracia liberal, confrontam-se. Juntos, eles fazem o balanço da História e opõem seus projetos respectivos: de um lado, a recuperação da ‘hipótese comunista’, de outro, a reforma em profundidade de um modelo democrático contestado”.

O livro do ensaísta e pensador político peruano Carlos Mariátegui, que data de 1930 (La defensa del marxismo) e fora reeditado em francês no mês de setembro (Paris: Éditions Delga, 2014), vinha acompanhado do prefácio “O Marxismo nos Andes”, de autoria de Antonio Melis. O texto de Mariátegui, por sua vez, já fora objeto de reflexão num artigo publicado em 2008 por Wolfgang Fritz Haug, professor de filosofia na Universidade Livre de Berlim, no qual se lê: “Entre as obras de José Carlos Mariátegui a que mais se opõe ao mainstream do final do século XX é Defesa do Marxismo. Já que hoje em dia se necessita, novamente, de considerações extemporâneas como remédio contra o espírito da época embriagado pelo ‘triunfo do capitalismo’, seria bom voltar os olhos para esta obra”. Não é demais lembrar que Mariátegui é autor de Sete ensaios de interpretação da realidade peruana (1928), obra que seria decisiva na formação da consciência política do jovem Guevara de La Serna (a primeira edição desta obra, aliás, trazia uma epígrafe de Friedrich Nietzsche, retirada de Aurora, e talvez seja esta a razão de Wolfgang Fritz Haug associar Mariátegui e Nietzsche, por meio da referência às Considerações extemporâneas).

Mas o livro que verdadeiramente causava impacto, ocupando o centro da vitrine, era a monumental biografia de Cornelius Castoriadis (1922-1997), investigação realizada por François Dosse, historiador e autor de diversas outras biografias, entre elas a de Paul Ricouer (1997), Michel de Certeau (2002) e a de Gilles Deleuze e Félix Guattari (2007). Eis o trecho inicial da obra sobre o filósofo grego-francês escrito pelo próprio François Dosse: “Esta biografia de Cornelius Castoriadis nasce de um paradoxo. Como explicar que um intelectual de uma tal amplitude tenha permanecido marginal, negligenciado pela Universidade até o fim de sua vida? Por que um tal déficit de reconhecimento? Por que esta travessia do deserto durante a qual ele pregava, com um punhado de seus companheiros de Socialismo ou Barbárie, sem jamais ter sido verdadeiramente entendido? Este marginal, este outsider, foi, no entanto, qualificado de ‘gênio’ pelo historiador helenista Pierre Vidal-Naquet, que via nele um grande filósofo com o qual podia falar de igual para igual sobre a Grécia antiga, da qual era especialista. Edgar Morin não cessou jamais de considerá-lo como um irmão em armas no combate comum por um mundo melhor. Ele via em seu amigo um ‘Titã do espírito’ (…). Poderíamos multiplicar assim ao infinito os efeitos de sideração que provocou a obra de Castoriadis em seus contemporâneos e que continua a suscitar na nova geração (…). Ele renovou a filosofia política por sua análise precoce da natureza do regime soviético como sistema burocrático. Como, então, explicar um tal paradoxo?”. Um verdadeiro paradoxo que François Dosse busca esclarecer ao longo de quinhentas e trinta páginas de seu livro.

Três obras escolhidas a dedo e expostas naquele ano na vitrine localizada na Rue des Écoles. À meia-quadra dali a estátua de Michel de Montaigne, com seus olhos fixos na Sorbonne. Na outra esquina, o antigo cinema Le Champo, que exibia o filme Rome, ville ouverte (Roma, cidade aberta), de Rosselini. Naquele dia de outono entrei na Livraria, comprei a biografia de Castoriadis e depois fui assistir ao clássico de Rosselini. No retorno para meu quarto, na Cité Universitaire, lembrava do amigo Jarbas Lazzari ‒ intelectual autodidata que conheci em Pelotas no início dos anos 1990, e que já percorria – e ainda hoje percorre – As encruzilhadas do labirinto do pensamento filosófico de Cornelius Castoriadis.

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