O monstro-de-gila é um pequeno lagarto nativo do deserto da América do Norte com um organismo peculiar. O réptil tem a capacidade de sobreviver com apenas três refeições ao ano, e seu veneno possui um hormônio com potencial para aumentar os níveis de insulina no sangue. Foram essas características metabólicas do animal que inspiraram a criação do princípio ativo responsável por revolucionar o tratamento do diabetes e da obesidade: a semaglutida.
Cientistas descobriram que a lenta digestão do monstro-de-gila tinha origem em uma molécula produzida em seu veneno, a exendina-4. Ela atua de forma semelhante ao GLP-1, um hormônio produzido no intestino dos seres humanos após a alimentação para sinalizar ao cérebro a sensação de saciedade. A diferença entre os dois mecanismos é que a exendina-4 atua por um período bem mais prolongado em comparação aos poucos minutos de duração do GLP-1 na corrente sanguínea.
As duas substâncias, ao chegarem ao pâncreas, indicam que o órgão precisa começar a produzir insulina para controlar o aumento da glicose no sangue gerado pela refeição. Por isso, os primeiros medicamentos produzidos com a enzima do lagarto foram destinados ao tratamento do diabetes. Porém, devido ao efeito de perda de peso observado nos usuários diabéticos, provocado pela sensação de saciedade, a semaglutida começou a ser usada de forma off-label para o emagrecimento. Em pouco tempo, essa classe de medicamentos se tornou uma das mais famosas do mundo, impulsionada por termos como Ozempic e “canetas emagrecedoras”.
Do diabetes à obesidade
A médica endocrinologista e professora das Universidades Federal de Pelotas (UFPel) e Católica de Pelotas (UCPel), Maria Alice Dode, cita o fato de a semaglutida não oferecer risco de hipoglicemia em pacientes sem diabetes como uma das grandes vantagens do medicamento, que pode ser utilizado para as duas condições: obesidade e diabetes.

Enzima presente na saliva do monstro-de-gila, lagarto capaz de sobreviver com apenas três refeições por ano, inspirou criação do medicamento (Foto: Divulgação)
“Porque ele está associado a ter glicose aumentada, então ele é liberado de acordo com a quantidade de glicose”, diz.
A endocrinologista cita também que, além dos sinais de saciedade enviados pela enzima ao hipotálamo, no cérebro, um dos principais mecanismos responsáveis pela perda de peso provocada pela exendina-4 do lagarto é a diminuição do esvaziamento gástrico. “Ele faz com que a comida fique mais tempo parada no estômago”, e, consequentemente, o usuário não sente fome.
Uma revolução no tratamento da obesidade
O uso das canetas análogas de GLP-1 para o emagrecimento é prescrito nos casos de obesidade e de sobrepeso com comorbidades associadas, como diabetes e hipertensão. A ampla ação desse tipo de medicamento, capaz de influenciar a digestão, o metabolismo da glicose e o cérebro, representou uma revolução no tratamento da obesidade.
Maria Alice Dode explica que, antes da semaglutida, não havia nenhuma estratégia com a capacidade de ação das canetas e, consequentemente, nada semelhante apresentava um efeito de perda de peso tão positivo quanto esse princípio ativo.
“Para nós, que trabalhamos com obesidade, era muito frustrante não ter a capacidade de oferecer tratamentos seguros e com resultados satisfatórios”, diz.
Os resultados do tratamento com as canetas são tão promissores que a endocrinologista acredita na possibilidade de a semaglutida substituir a cirurgia bariátrica.
“Porque a intervenção cirúrgica acaba provocando outro problema, que é uma doença disabsortiva, porque interfere na absorção de nutrientes”, explica.
O efeito positivo em outras doenças
A semaglutida também tem demonstrado benefícios no tratamento de outras condições de saúde. No contexto da obesidade, a manutenção de um peso corporal saudável contribui para a prevenção de diversas comorbidades, como hipertensão arterial, diabetes e eventos cardiovasculares graves, incluindo infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Além disso, a medicação vem sendo utilizada no tratamento da apneia obstrutiva do sono e de doenças renais, com destaque para a doença renal crônica.
O mecanismo pré-histórico que impede a perda de peso
A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, que pode ter origem em predisposição genética ou em fatores comportamentais associados. Prescrições de dietas e a prática de exercícios físicos auxiliam no controle do problema, mas, geralmente, não são suficientes para gerar uma perda de peso substancial. Depois de um tempo seguindo o novo regime alimentar, o emagrecimento costuma estacionar ou o paciente acaba ganhando peso novamente.

Canetas agem no retardamento do esvaziamento do estômago e enviam sinais de sensação de saciedade ao cérebro (Foto: Divulgação)
“Há um tempo, a gente tinha esse entendimento de que bastava fazer dieta e exercícios físicos para a pessoa emagrecer. Ouvíamos muito os pacientes se queixando porque seguiam essa fórmula e não emagreciam. E a pessoa com obesidade estava sempre, de certa forma, sendo desacreditada no que fazia”, cita.
Esse processo tem uma explicação no funcionamento do organismo humano, que, de certa forma, impede o emagrecimento. O excesso de peso está associado ao aumento do volume das células de gordura. Quando ocorre a perda de peso, essas células diminuem de tamanho, em um processo semelhante a um “murchamento”. No entanto, elas permanecem presentes e ativas no organismo.
A longo prazo, as dietas perdem o efeito porque, como forma de proteger o corpo e manter a pessoa viva, um mecanismo de adaptação aos períodos de escassez alimentar da Pré-História faz com que o organismo diminua o gasto energético e freie a perda de peso. O propósito é restabelecer as células de gordura e garantir a sobrevivência.
“Ele aumenta o apetite e diminui o gasto energético, e isso é um boicote para as pessoas que estão querendo emagrecer, mas é um mecanismo fisiológico”, explica a endocrinologista.
Perda de músculo e reposição de gordura
No emagrecimento há perda de gordura, mas também de massa magra. No entanto, quando a pessoa volta a ganhar peso, o espaço do músculo perdido é preenchido por mais gordura. O efeito sanfona acaba sendo mais um gatilho para dificultar o emagrecimento.
“E a capacidade de emagrecer fica pior porque ela tem menos capacidade de gerar energia. A gordura só acumula energia; o músculo gasta energia, por isso ele é muito importante para perder peso”, explica Maria Alice Dode.
Tratamento contínuo
Considerando o desafio fisiológico que pessoas com obesidade enfrentam para manter um peso saudável e o fato de a obesidade ser uma doença crônica, o tratamento com canetas emagrecedoras ou outros medicamentos tende a ser contínuo para garantir a manutenção dos resultados alcançados.
“O tratamento não termina. Assim como tu trata o diabetes com remédios para sempre, inclusive com esse tipo de medicamento [as canetas], para a obesidade é a mesma coisa. Porque [o peso] vai voltar”, diz a endocrinologista.
O desafio do preço
Porém, o desafio para a manutenção ininterrupta do tratamento é o custo das canetas de semaglutida. Em muitos casos, o valor ultrapassa R$ 1 mil mensais, especialmente nos casos mais graves, de pessoas com obesidade. Os custos são mais elevados devido às dosagens mais altas do medicamento.
“Muitas pessoas não conseguem manter o tratamento por causa do preço. Todos os dias nós lidamos com pessoas que precisam usar a medicação, mas que não conseguem”, diz.
Diante dos desafios inerentes a qualquer tratamento para emagrecimento, a endocrinologista destaca que a adoção de uma alimentação saudável, baseada em alimentos in natura e minimamente processados, aliada à prática regular de exercícios físicos, é fundamental para manter um peso saudável e, sempre que possível, evitar a necessidade do uso de medicamentos para emagrecer.
