“A consolidação de todo o painel foi com certeza o momento mais crítico”

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“A consolidação de todo o painel foi com certeza o momento mais crítico”

Mirella Borba e Karen Caldas - Professoras do curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da UFPel

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“A consolidação de todo o painel foi com certeza o momento mais crítico”
Mirella Borba e Karen Caldas. (Foto: Reprodução)

As professoras doutoras Karen Caldas e Mirella Moraes de Borba, do curso de Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), coordenam projetos de grande relevância nacional. Recentemente, entregaram ao Ministério da Educação (MEC) a restauração do painel Educação (1961), de Gilda Reis. A obra de 15 metros quadrados, localizada na Esplanada dos Ministérios, sofreu apagamento político na ditadura e graves danos estruturais. Agora, a equipe trabalha na recuperação do painel O homem é a medida de todas as coisas, de Vallandro Keating, na sede do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Como surgiu o projeto e qual a importância histórica desse painel do MEC?

Karen Caldas: São dois projetos diferentes. Eu coordeno o do MEC, já entregue, e a Mirella é a coordenadora adjunta. No do STJ, invertemos os papéis. O painel do MEC foi pintado em 1961 por Gilda Reis Neto, a convite de Niemeyer, para a antessala do Ministro. Na ditadura, por sua conotação político-social, ele foi fechado com madeira. A obra retrata a inclusão social como responsabilidade do governo, mostrando desde crianças uniformizadas até famílias descalças. Com o tempo, o espaço virou almoxarifado, a obra se deteriorou e a artista sofreu um apagamento. Esse é o único mural dela que sobreviveu em Brasília. Um funcionário de carreira do MEC, João Almeida, insistia na restauração a cada mudança de chefia. Finalmente, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) nos indicou. Iniciamos em 2024 e entregamos em 16 de junho.

Quais foram os principais desafios técnicos e de gestão da obra?

Mirella Moraes de Borba: Cerca de 20% da obra já havia se perdido. O uso anterior de um vidro gerou um microclima prejudicial com as oscilações térmicas de Brasília. Além disso, os desafios não foram só técnicos, mas burocráticos. Os instrumentos firmados com o MEC e o STJ são demorados, mas essenciais para garantir a ética e o bom uso da verba pública. O projeto envolveu a contratação de três egressas do curso e estudantes, promovendo a extroversão da universidade para o mercado de trabalho. Sobre a restauração propriamente dita, ela também trouxe suas dificuldades. Principalmente porque a gente chegou a toda camada pictórica ela estava caindo. A gente não podia chegar muito perto do painel porque caía. A consolidação de todo o painel foi com certeza o momento mais crítico da restauração e também foi o que levou mais tempo. As meninas que trabalharam lá, foram excelentes no trabalho que fizeram.

Como foram tomadas as decisões estéticas para a reintegração da pintura?

Karen Caldas: Toda decisão de traço e cor foi conversada com a comunidade do MEC, que convive com o painel diariamente. Fizemos simulações no computador para mostrar as possibilidades de reintegração. Alinhamos o trabalho às discussões teóricas contemporâneas da restauração, integrando o desejo do proprietário ao valor da obra. Foi um processo complexo de tomada de decisão.

Como funciona o financiamento por trás dessa restauração?

Karen Caldas: Utilizamos o Termo de Execução Descentralizada (TED), um contrato de repasse de recursos entre o MEC e a UFPel. A universidade faz um convênio com a Fundação Simoniz Mendes Silveira, que gerencia a verba e contrata os profissionais, tudo sob rigorosa fiscalização. O projeto total foi de R$ 1,5 milhão, sendo que R$ 500 mil ficaram retidos no MEC para despesas como passagens, diárias e mobiliário.

Houve alguma descoberta marcante durante o processo?

Karen Caldas: Descobrimos uma intervenção anterior que não foi documentada. Um dos personagens estava em uma posição diferente (de perfil), estilo que Gilda Reis não utilizava, pois ela sempre pintava em três quartos ou de frente. Exames com luz ultravioleta (UV) e o cruzamento de fotos históricas confirmaram a sobreposição de outra mão na pintura. Até a filha da artista, Marta, confirmou que aquele não era o traço de sua mãe.

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