A inteligência artificial vive uma nova fase de expansão, ao mesmo tempo que desperta preocupações. Além do temor pela dependência da tecnologia, as deepfakes são um dos temas que exigem maior atenção. O tema ganhou mais destaque nas últimas semanas diante dos debates éticos levantados pela primeira encíclica do papa Leão XIV, que aborda os desafios da humanidade na era digital.
Para o professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e coordenador do Laboratório de Pesquisa em Inteligência Artificial Aplicada à Saúde de Precisão, Paulo Ferreira, o cenário exige atenção, mas sem alarmismo. “Há dez anos eu diria que isso era impossível. Hoje eu digo: vamos tomar um pouquinho de cuidado. As coisas avançaram muito rápido. Não digo que a gente vai ser dominado, mas que pode ficar muito dependente da tecnologia e relegar o nosso cérebro a fazer cada vez menos”, afirma.
IA não substitui criatividade humana
O avanço das ferramentas capazes de gerar textos, imagens, músicas e vídeos também alimenta o debate sobre o futuro da produção artística. Na avaliação do pesquisador, a inteligência artificial ainda está longe de substituir a criatividade humana. “Eu costumo dizer que ela pasteuriza a arte. Ela consegue reproduzir tudo aquilo que os humanos fizeram até hoje, mas de forma harmonizada, fazendo uma média do que já existe. A verdadeira arte depende de criatividade, inovação e experiências humanas”, avalia.
Para ele, a tecnologia deve continuar sendo tratada como ferramenta aliada do trabalhador, e não como competição. Ferreira acredita que muitas funções serão transformadas, mas não necessariamente eliminadas. “É uma etapa impactante, mas é mais uma etapa na história da humanidade. O trabalho sempre se transformou. A máquina de escrever foi substituída pelo computador. O trabalho artesanal foi substituído pela industrialização. Agora estamos vendo mais uma mudança”, diz.
Saúde e educação podem se beneficiar
Na área médica, os avanços já são concretos. O laboratório coordenado por Ferreira trabalha no desenvolvimento de sistemas para classificação de tumores a partir de inteligência artificial. Além do diagnóstico, a tecnologia vem sendo utilizada na triagem de pacientes e no desenvolvimento de novos medicamentos. “A IA faz simulações e testes que levariam muito tempo para serem realizados de forma convencional. Isso acelera bastante a pesquisa científica.”
O uso da inteligência artificial nas salas de aula também já é realidade. Nas aulas do curso de Computação da UFPel, Ferreira afirma que incentiva seus alunos a utilizarem essas ferramentas. Segundo ele, a tecnologia pode tornar o aprendizado mais eficiente. “A primeira coisa que eu digo para eles é: nós vamos usar inteligência artificial. O que não pode acontecer é o aluno não saber explicar o que foi feito.”
Apesar dos avanços em pesquisa, Ferreira aponta dificuldades estruturais enfrentadas pelas universidades federais. Segundo ele, muitos laboratórios conseguem manter pesquisas de ponta graças à captação de recursos externos, mas a realidade do ensino é diferente. “A universidade precisaria de pelo menos o dobro dos recursos que recebe hoje para oferecer uma infraestrutura adequada.”
Deepfakes é a preocupação
Se há uma área que exige atenção imediata, segundo o pesquisador, é a produção de conteúdos falsos por inteligência artificial. Os chamados deepfakes permitem criar vídeos, imagens e áudios extremamente convincentes. “Esse é o ponto que mais me preocupa. Quando a IA começa a influenciar pessoas ou tomar decisões que impactam a vida delas, entramos em uma zona de risco.”
Ele cita como exemplo a dificuldade que muitas pessoas têm para identificar conteúdos manipulados. Para Ferreira, o tema exige regulamentação e punições específicas. “Isso envolve regulação, fiscalização e criminalização. É algo gravíssimo.”
Computação quântica será próxima revolução
O pesquisador também acredita que a próxima grande transformação tecnológica será impulsionada pela computação quântica. Isso significa um salto gigantesco na capacidade de processamento. “O que hoje leva um dia para ser processado poderá ser feito em segundos.”