O problema é em casa

editorial

O problema é em casa

O problema é em casa
(Foto: Marcelo Casal/Agência Brasil)

Dos 55 milhões de brasileiros com menos de 18 anos de idade, 115.814 sofreram algum tipo de violência só no primeiro quadrimestre do ano. A maioria são do sexo feminino, entre quatro e oito anos de idade. E o próprio lar é o principal local de ocorrência. Os números foram desnudos na Comissão de Direitos Humanos do Senado, durante uma audiência pública nesta semana. Além do horror exposto pelos dados, levanta-se o questionamento: por qual motivo ainda maltratamos tanto nossas crianças?

A estatística torna-se pior quando especialistas apontam que cerca de 10% das ocorrências viram, de fato, denúncias formais. Ou seja, por essa lógica, mais de um milhão de crianças apanharam, foram abusadas ou sofreram agressão psicológica em apenas quatro meses. A solução apontada no debate que o Senado levantou foi a atuação integrada entre entidades no combate à violência. Muito bem e essencial, afinal, é preciso diálogo e monitoramento constante. Mas é preciso ir além, no cerne da questão: que a sociedade mude seu olhar para crianças que, sejamos honestos, ainda são tratadas como cidadãos inferiores em muitos momentos pela nossa cultura.

Se o provérbio africano diz que para criar uma criança é preciso uma aldeia, indicando que a responsabilidade não é exclusivamente dos pais, para abusá-la e matá-la também é preciso de um silêncio dessa própria aldeia. Há ainda quem acredite, no fundo de sua alma, que educação passa por punições e violência. Quem entenda que filho é voltado para servir aos pais, e não um indivíduo com vontades e ideias próprias. Que a solução para colocá-lo “na linha” é a agressão. Isso tudo deixa sinais, que devem ser percebidos pelo seu entorno, pelos demais familiares inclusive.

Esse diálogo precisa permear a formação de cidadãos e estar presente nos lares. Ninguém jamais ficou melhor por apanhar. Talvez tenha ficado mais resignado, encolhido, silenciado pela humilhação de ser atacado por quem deveria lhe dar amor. Mas não melhor. A cultura precisa ser mudada, e aí sim, na marra. Criança cresce e evolui com carinho, atenção e zelo. Assim, torna-se um adulto melhor e o mundo também melhora.

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