“O maior carinho que podemos ter por um animal selvagem é respeitar sua natureza”

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“O maior carinho que podemos ter por um animal selvagem é respeitar sua natureza”

Paula Lima Canabarro - Coordenadora do Centro de Recuperação de Animais Marinhos (CRAM/Furg)

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“O maior carinho que podemos ter por um animal selvagem é respeitar sua natureza”
De acordo com a oceanóloga, a maioria dos problemas enfrentados pelos animais decorre das mudanças climáticas e da poluição ambiental (Foto: Acervo Pessoal)

Referência nacional na reabilitação de fauna marinha, o Centro de Recuperação de Animais Marinhos (CRAM), da FURG, atua há décadas no resgate, tratamento e devolução ao ambiente natural de espécies encontradas debilitadas no litoral gaúcho. Além de cuidar de animais como pinguins, tartarugas, golfinhos e leões-marinhos, a instituição também desenvolve pesquisas, forma profissionais e promove ações de educação ambiental.

Qual é a importância do trabalho desenvolvido pelo CRAM para a Furg e para o Brasil?
O trabalho acontece no Museu Oceanográfico da Furg há muitos anos. O CRAM é pioneiro na reabilitação de animais marinhos no Brasil, atuando desde a década de 1970 nesse movimento de resgatar os animais, de encontrar os animais debilitados e entender que eles merecem ser cuidados, tratados e devolvidos pro mar. E isso, sobretudo, porque a maioria deles encalha devido a alguma interação com atividade humana, então, não é fruto de processo natural das espécies.

Ao longo do tempo, houve uma evolução dos procedimentos, da capacitação das equipes e dos protocolos de atendimento. Hoje contamos com uma estrutura especializada e profissionais capacitados. Além da reabilitação, desenvolvemos pesquisas, formamos profissionais, promovemos atividades educativas e aproximamos a comunidade das questões relacionadas à conservação marinha.

O que as pessoas devem fazer ao encontrar um animal marinho na praia?
A orientação é avisar os órgãos competentes, como o CRAM, a Polícia Ambiental ou as secretarias municipais de Meio Ambiente. É importante manter distância do animal, evitar a aproximação de cães e outros animais domésticos, não tentar devolvê-lo ao mar, não oferecer alimento e, se for fotografar, não utilizar flash. O ideal é respeitar o espaço do animal até a chegada da equipe especializada.

Quais são os principais animais atendidos pelo CRAM?
Trabalhamos com três grandes grupos: tartarugas marinhas, aves marinhas e costeiras e mamíferos marinhos. Entre as aves, destacam-se os pinguins, albatrozes, petréis, gaivotas, trinta-réis e biguás. Nos mamíferos marinhos, atendemos leões-marinhos, focas, elefantes-marinhos, golfinhos e a toninha, que é um pequeno golfinho. Também temos os botos da Lagoa dos Patos e a presença de baleias em nossa região.

O que os animais resgatados revelam sobre os problemas ambientais da região?
Eles funcionam como uma denúncia do que está acontecendo no ambiente marinho e costeiro. Recebemos, por exemplo, pinguins contaminados por óleo, animais com resíduos sólidos no estômago, emaranhados em lixo ou com sinais de interação com atividades pesqueiras. Além disso, observamos os impactos das mudanças climáticas sobre diversas espécies. Essas informações ajudam a gerar conhecimento, promover debates e buscar soluções para reduzir essas ameaças.

Percebes um aumento de problemas ambientais ao longo dos anos?
Sim. Um exemplo é a questão do lixo. Observamos uma presença cada vez maior de resíduos no trato gastrointestinal de animais que vêm a óbito, como tartarugas, pinguins, lobos-marinhos e aves oceânicas. São problemas que esses animais enfrentam e a gente vem registrando para compreender melhor esses impactos e buscar alternativas para diminuir ou mitigar. Isso gera pesquisas, trabalhos acadêmicos e ações educativas que ajudam a buscar alternativas para esses problemas.

Como é o momento da soltura dos animais reabilitados?
É um momento de grande emoção, gratidão e sensação de dever cumprido. Ficamos felizes ao ver o animal voltando para casa, porque, quando trabalhamos com animais selvagens, de vida livre, a gente entende que eles não são animais domésticos e o maior carinho que podemos ter por um animal selvagem é respeitar sua natureza. É respeitando o seu espaço de vida e respeitando que eles estarão muito melhor nos oceanos, cumprindo seu ciclo migratório, do que próximos de nós ou sob nosso cuidado. O centro de reabilitação é um hospital temporário; quando ele recebe alta, precisa voltar pra casa, para o seu ambiente natural, e ver esse retorno ao mar é a nossa maior recompensa.

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