Relações infames

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Relações infames

Relações infames
(Foto: Jô Folha)

Reduzir o debate sobre a corrupção no Brasil a apenas bom ou ruim, esquerda ou direita, nós e eles é diminuir a qualidade e a profundidade do debate. O caso Master é mais um que vem para deixar claro que a sem-vergonhice não tem ideologia. Quando o dinheiro fala alto, a corrupção é superior a qualquer crendice que, cada vez mais, fica parecendo apenas uma maneira de movimentar as bases diante de uma polarização que só beneficia pouquíssimos. Em ano eleitoral, boa parte dos marqueteiros de campanha tentam colar nos adversários a pecha de corrupto, quando na verdade o problema é muito mais estrutural do que político-partidário.

O Brasil acostumou-se com a política do toma-lá-dá-cá, uma prostituição dos poderes através de relações de vantagem em troca de recursos ou vantagens, sejam para campanha, sejam para o próprio bolso. Para muitos, isso ganhou um nome: o “sistema”. Nomenclatura positiva justamente para o tal sistema, já que dá os ares de uma grande conspiração obscura, quando, na verdade, é apenas uma estrutura que já é basicamente natural para os envolvidos. Apenas funciona assim. É assim que é.

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, por exemplo, não era movido por ideologias, ao que tudo indica. Era movido por interesses. Assim, basicamente arrendou os mandatos de senadores e deputados da direita à esquerda, passando pelo Judiciário e por executivos e legislativos estaduais, segundo apontam as investigações. Ou seja, o foco era usar a política para seus negócios e mutretas, não para questões eleitorais. A troca é simples: dinheiro por vantagens, por vista grossa e apoio a projetos obscuros.

Quem encontra conforto em achar que está do lado certo e acreditando que o inferno são os outros, raramente vai enxergar que o problema vai muito além das siglas. O problema é justamente essa normalização e a falta de leitura de grande parte da sociedade. O debate cego sobre ideologia só esconde o que o Brasil se tornou em, infelizmente, grande parte dos núcleos de poder: um grande comércio de influência. Não existe salvador da pátria nem gritaria que resolva. A mudança precisa ser estrutural. Mas como mexer as estruturas? Eis a pergunta mais valiosa de todas. O primeiro passo, certamente, é nas urnas.

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