A CMPC disse que poderia levar seu projeto bilionário para o Paraguai, e isso bastou para mudar o tom da conversa. O que vinha sendo tratado como processo, licença, condicionante, consulta, parecer e disputa jurídica virou assunto de governador, prefeito, deputado, candidato, entidade empresarial e liderança regional.
A política gaúcha ouviu a palavra “Paraguai” e entendeu o recado: ninguém quer aparecer como responsável por deixar escapar o maior investimento privado prometido ao Rio Grande do Sul. A ameaça mexeu onde a política mais sente, que é na fotografia pública.
De repente, era preciso mostrar serviço. Houve reunião no Piratini, nota oficial, defesa pública da segurança jurídica e mobilização empresarial. Depois vieram os pré-candidatos ao governo tratando do tema, os prefeitos se aproximando e, nesta semana, a entrega de uma licença ambiental ligada ao terminal portuário em Rio Grande transformada em ato político no Palácio Piratini.
Não era a licença da fábrica de Barra do Ribeiro, e esse detalhe importa. Mas também não era um papel qualquer. O terminal em Rio Grande faz parte da engrenagem logística do Projeto Natureza e, sem porto, sem escoamento e sem estrutura de transporte, projeto bilionário vira apresentação de PowerPoint.
Rio Grande percebeu isso rapidamente. A prefeita Darlene Pereira (PT) esteve no Piratini, e o município fez questão de recortar a notícia pelo ângulo local, como era de se esperar de uma cidade portuária que não pode assistir de braços cruzados quando uma cadeia desse tamanho encosta no cais.
Pelotas também deveria olhar para isso com mais atenção. A fábrica não será aqui, mas os efeitos passam por aqui: serviços, fornecedores, universidades, mão de obra, logística, pressão sobre estradas, disputa por território, reflexos na Lagoa dos Patos, pesca artesanal, ambiente de negócios e ambiente natural. A Metade Sul será atravessada por esse projeto, gostando ou não da CMPC.
É justamente por isso que o debate precisa sair do encantamento fácil. O Rio Grande do Sul precisa de investimento, e a Metade Sul precisa ainda mais. Há cidades inteiras esperando há décadas por uma oportunidade concreta de desenvolvimento, mas desenvolvimento não pode ser senha para atropelo.
A CMPC tem o direito de defender seu projeto, o governo tem o direito — e até o dever — de disputar investimento, e os prefeitos têm a obrigação de buscar alternativas econômicas para suas cidades. Nada disso elimina o básico: um empreendimento desse tamanho precisa ser fiscalizado.
O Ministério Público Federal entrou nessa história porque há discussão sobre comunidades indígenas, pescadores artesanais, quilombolas, consulta prévia e impactos ambientais. Há preocupação com água, território, efluentes, transporte, monocultura de eucalipto e efeitos acumulados sobre a região. Afinal, investimento sério não deve temer pergunta difícil.
As últimas semanas mostraram a força de uma grande empresa quando coloca o medo na mesa. Bastou sugerir a saída do Estado para que a política corresse — e ela correu rápido, para a foto, para a nota, para a reunião e para o gesto público.
Agora falta saber se correrá com a mesma velocidade para garantir que os impactos não sejam empurrados para baixo do tapete. Porque o dinheiro fez a política se mexer. Resta saber se a fiscalização terá a mesma pressa.
Uniforme regional
O governo do Estado vai incluir micro e pequenas confecções gaúchas na próxima licitação dos uniformes escolares da rede estadual. A medida foi confirmada pela Secretaria da Educação após articulação do deputado Miguel Rossetto, do PT. O edital, previsto para o fim de agosto, deve ter disputas específicas em nove regiões do Estado e pode movimentar mais de R$ 20 milhões. A consequência prática é fazer parte desse dinheiro circular na economia local, dando espaço a empresas que ficaram fora da última licitação. Para pequenas confecções, uma encomenda do Estado pode significar fôlego, emprego e previsibilidade. Rossetto, mesmo na oposição, emplaca uma demanda do setor produtivo dentro do governo Leite. A Seduc acolhe, mas diz que os ajustes já vinham sendo analisados. No fim, mérito à parte, a pergunta é simples: se o Estado vai gastar milhões em uniformes, faz sentido que esse recurso também ajude a fortalecer a indústria gaúcha.
Chegou ao PT
A Operação Compliance Zero, que investiga o escândalo do Banco Master, chegou a um dos nomes mais importantes do PT no Congresso. O senador Jaques Wagner, líder do governo Lula no Senado, foi alvo de buscas autorizadas pelo STF. A Polícia Federal apura se houve recebimento de vantagens indevidas e eventual atuação parlamentar em temas de interesse do banco. Wagner nega irregularidades.
Politicamente, o fato novo é forte. Até aqui, o caso era associado principalmente a nomes da direita, do Centrão e do entorno bolsonarista. Agora, alcança formalmente um quadro central do lulismo. Isso não transforma investigação em condenação, mas tira o PT da posição confortável de tratar o escândalo como problema dos outros.
O caso Banco Master parece menos uma história de um partido só e mais um retrato da relação perigosa entre dinheiro, lobby financeiro e poder em Brasília. Se não houver prova, Wagner deve ser preservado. Se houver, deve responder como qualquer outro. O critério não pode mudar conforme a cor partidária do investigado.
Vozes regionais
Antes de passar pela sabatina no Grupo A Hora, o vice-governador Gabriel Souza, pré-candidato do MDB ao governo do Estado, participa no sábado, da etapa regional do projeto Vozes do Rio Grande. O encontro ocorre a partir das 10h, no auditório da Associação Comercial de Pelotas, e integra a caravana política do MDB e do PSD para a construção do plano de governo da aliança nas eleições de 2026. Também estarão em Pelotas o deputado Ernani Polo, pré-candidato a vice-governador pelo PSD, o ex-governador Germano Rigotto e o deputado Frederico Antunes, cotados para a disputa ao Senado. Coordenado pelo ex-senador José Fogaça, o evento deve reunir lideranças de cerca de 20 municípios da Zona Sul.