Para contribuir no fortalecimento de uma cultura de resiliência climática no município, Pelotas lançou ontem o projeto Agentes Mirins de Defesa Civil. Destinado a crianças e adolescentes da rede pública de ensino, a iniciativa é da Secretaria de Proteção e Defesa Civil de Pelotas e da Universidade Feevale, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e a Faculdade de Pedagogia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).
Participarão das atividades estudantes entre 8 e 17 anos, que frequentam três escolas da rede municipal de ensino localizadas em zonas de riscos climáticos. A formação irá acontecer até o final do ano escolar, através de oficinas educativas, saídas de campo e simulações de risco.
Segundo o secretário de Proteção e Defesa Civil, Milton Rodrigues, o projeto pretende criar uma nova cultura de proteção e compreensão de alertas entre pelotenses. “Segundo a base científica, a chance de acontecer hoje uma emergência climática é cinco vezes mais frequente e cinco vezes mais intensa. Nessa perspectiva, precisamos preparar as localidades e as pessoas mais vulneráveis para um enfrentamento inteligente. Queremos criar mensageiros do clima”, diz.
No total, foram 150 vagas ofertadas, em primeiro momento, para três escolas da região das praias do município, sendo 50 para cada uma delas: EMEF Dom Francisco de Campos Barreto, no Balneário Valverde; Emef Luiz Augusto de Assumpção, no Balneário dos Prazeres; e Emef Almirante Raphael Brusque, na Colônia de Pescadores Z-3. “O fato de começarmos por essas três escolas foi uma decisão difícil, porque são 94 escolas na rede e a nossa ideia é que o projeto possa se expandir para todas elas”, afirma a secretária de educação, Vitória Feldens.
Como irá funcionar o projeto?
Os estudantes atuarão como multiplicadores de práticas de prevenção, o que deverá impactar na redução de riscos, contribuindo para o fortalecimento da cultura de resiliência a desastres climáticos no município de Pelotas. O projeto foi estruturado em 11 encontros, entre eles o primeiro contato com as escolas para engajamento dos alunos interessados, e a realização de seis oficinas.
Além disso, o projeto contará com saídas de campo nas zonas ribeirinhas de Pelotas. “São as regiões mais vulneráveis, do ponto de vista hidrológico, mas são zonas riquíssimas, do ponto de vista cultural, pois tem diversos povos tradicionais e ribeirinhos reconhecidos por lei. Então eles terão a potência de ver essas áreas que são vulneráveis, identificar os riscos, e, ao mesmo tempo, ver o potencial cultural que existe nessas áreas”, afirma Fabiane Fonseca, diretora do departamento de monitoramento, capacitação e participação popular da Secretaria de Defesa Civil de Pelotas.
Segundo ela, o projeto de Agentes Mirins da Defesa Civil já era projetado desde a estruturação da secretaria pelo executivo municipal.
Interesse dos alunos
Uma das escolas participantes neste primeiro momento do projeto, a Dom Francisco de Campos Barreto, foi uma das mais atingidas pelo avanço das águas em 2024. A professora Daniela Tavares, afirma que o contexto das próprias crianças, que também tiveram as casas atingidas pela enchente, fez com que a maioria se interessasse em se tornar um Agente Mirim da Defesa Civil. “Perdemos toda a parte de baixo do prédio, ficamos mais de um mês com um metro e meio de água na escola. Então, quando chegou essa proposta de um projeto sobre os efeitos climáticos, nós apoiamos imediatamente”, diz.
Sobre a importância do projeto no desenvolvimento da cidadania e na relação de ensino-aprendizagem dos alunos, a professora destaca a possibilidade dos alunos levarem até seus familiares o que for ensinado dentro da formação. “É importante eles saberem como se posicionar dentro da comunidade, quando acontecerem essas ações. Saberem o quê e como fazer para ajudar, como prevenir que as situações piorem”, considera Daniela.
A estudante do 8º ano da escola do Balneário Valverde, Maria Antônia Farias Krause, 13, relembra que a água chegou quase ao teto da sua casa e que, diariamente, percorria com o tio de barco o trajeto do abrigo até a residência, para ver como estava a situação, e que as imagens não saem de sua cabeça. “Como a minha região, o Pontal da Barra, foi bem atingida, eu queria saber mais como ajudar e acho que o que eu vou aprender no projeto vai poder me ajudar nisso, se tiverem outras enchentes”, diz Maria.
Parceria com as universidades
As cartilhas e materiais que serão utilizados para a aplicação do projeto serão distribuídas, gratuitamente, pela Universidade Feevale. Durante o lançamento, a representante da instituição, professora e pesquisadora Danielle Paula Martins, afirmou que o curso foi pensado para que as crianças possam compreender que todos somos componentes do meio ambiente e que precisamos respeitar os seus limites.
A reitora da UFPel, Ursula Silva, destacou aos estudantes presentes no evento o papel que tem no futuro do planeta e como a capacitação deverá direcionar as conversas com amigos e familiares, de forma a ampliarem a rede de conhecimento sobre o clima e o meio ambiente. “Encarem isso como o início do compromisso de vocês com a cidade. Estamos apostando em vocês e quero ver vocês nos representando”, reforça Ursula.
